Não sou o único a torcer por aquilo que poucos esportes,
além do futebol, ousam proporcionar: a chance de vitória do mais fraco
Copa do Mundo não é bem um evento destinado a quitar dívida
histórica, fazer o acerto de contas entre colonizadores e colonizados ou
reencenar, catarticamente, a vitória de Davi sobre Golias. Mas percebo que não
sou o único a torcer por aquilo que poucos esportes, além do futebol, ousam
proporcionar: a possibilidade de vitória do mais fraco.
Basta sair a lista das seleções classificadas, e já começo a
embandeirar o coração com as cores de países onde nem imaginava haver estádios,
gandulas, finta e catimba. Em 2026, os candidatos naturais seriam Curaçao e
Haiti, mas como resistir a Cabo Verde, em sua estreia na competição?
Cabo Verde é um Brasilin, chei di
ligria, chei di cor. Passei lá um carnaval, com direito a desfile de escola
de samba, em Mindelo, e baile animado por marchinhas (“Cidade maravilhosa”,
inclusive) e coladeiras. A Fifa não se enganou tanto assim ao situar a terra de
Vozinha em Minas Gerais: quem conhece Cabo Verde não esquece jamais.
Não esquece a cachupa pobre (cozido de milho, feijão,
mandioca, banana, couve e peixe), o grogue (aguardente de cana ainda mais forte
que a cachaça), a morna (parente da nossa modinha). E se emociona depois ao
reconhecer a doçura da mazurca cabo-verdiana na cena final de “Fale com ela”
(Almodóvar tem ouvido apurado) ou a voz dolente de Cesária Évora no tango
“Ausência”, de “Underground” (Emir Kusturica parece querer trazer a desoladora
paisagem do país — só rotcha i mar — para a Bósnia destruída
pela guerra, assim como Walter Salles para o Brasil pós-Collor, em “Terra
estrangeira”).
O que Cabo Verde tem de árido (não há um único rio perene),
o povo tem de hospitaleiro. Tanto que precisou inventar uma palavra para essa
simpatia, essa afetuosidade. O adjetivo “amorável” virou morabe e
fez-se morabeza: a arte do sorriso, da amabilidade, da gentileza.
Da mesma raiz de saber e sabor, os cabo-verdianos criaram sabura: a
sabedoria de ter prazer com as coisas simples, a delícia de viver com leveza,
com alegria.
Percorri o arquipélago — ilhas do Sal, Santiago, São
Vicente, Santo Antão — de avião, de barco, de carona, a pé. Aceitando convites
para um café, uma garapa. Fotografando a pelada de meninos descalços numa
ribeira seca, ouvindo histórias da repressão política, da tortura e da censura
durante o regime marxista — uma época certamente sem morabeza e
sem sabura alguma. E que não deixou sodade.
Tentei estudar o idioma local, mas nem era necessário. Na
aldeia de São Pedro, a dona do bar reagiu, incrédula, quando pedi uma cerveja:
— Bô tá falá sima un novela!
Sim, para ela eu não falava a língua geral do Agualusa ou a
língua brasileira do Marcos Bagno, mas aquele dialeto que ela ouvia na
televisão: eu estava a falar que nem novela. Aprendi só o mais
importante: nha cretcheu (querer + tcheu, que
significa “muito”), uma forma de dizer minha querida, meu bem-amado (ama-se,
por lá, em linguagem neutra).
Em campo, os “tubarões azuis” não se intimidaram com a
Espanha nem com o Uruguai. E mostraram que não se deve subestimar um time cujos
craques atendem por Sidny, Diney, Pico, Jamiro, Gilson, Ryan, Kevin, Jovane,
Dailon e Vozinha.
Nesta Copa, por mais que torça pela escalação do Endrick,
pela artilharia do Vini Jr. e pelo hexa, sou Cabo Verde desde criancinha.

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