Caiu a ficha do Copom? Não é o cenário externo o
principal obstáculo ao ciclo de corte de juros
Se decidir cortar a Selic para 14,25%, como é a aposta da
maioria dos analistas em razão da sinalização dada na reunião anterior, há
risco real de descontrole das expectativas de inflação
Quando o Copom começou a cortar a taxa Selic em março, a
guerra no Irã já havia causado um choque de oferta de petróleo, o que gerou
desconfiança quanto à prudência de um ciclo de afrouxamento monetário nessa
conjuntura. Mas o argumento de todo mundo, incluindo o Banco Central, era de
que a pressão externa – com a alta nos preços de combustíveis e de
matérias-primas – seria temporária; que o conflito no Oriente Médio iria acabar
logo; e que o Brasil poderia seguir cortando os juros “livre, leve e solto”.
O crescente otimismo com o fim da guerra no
Irã, de fato, tirou da mesa a pressão externa, mas o que os analistas começaram
a perceber – e quiçá, em alguma medida, até os próprios diretores do BC – é que
o principal obstáculo ao ciclo de corte de juros não é o cenário externo: são
os fatores domésticos. E muita gente vem fazendo, publicamente, a seguinte
pergunta: por que mesmo o BC está cortando os juros?
Desde a última reunião do Copom, em abril, os dados
mostraram um mercado de trabalho ainda apertado, com a taxa de desemprego
caindo para 5,8% e o rendimento médio habitual dos trabalhadores brasileiros
crescendo 5,4% na taxa anual. Outros indicadores registraram uma aceleração da
atividade econômica – e não um esfriamento, como o BC esperava.
A inflação corrente vem surpreendendo para cima, com as
principais métricas de preços subjacentes (que apontam para a dinâmica da
inflação) rodando perto de 5%.
Para agravar a situação, as expectativas de inflação deram
um salto. A mediana das projeções para o IPCA, conforme a pesquisa Focus, subiu
para 5,30%, em 2026, e 4,10% em 2027. Estão cada vez mais distantes da meta de
3%. Aliás, o Copom prevê inflação de 3,5% no quarto trimestre de 2027. Essa
estimativa ficou defasada.
O pano de fundo para a piora no cenário doméstico é o
estímulo fiscal – com medidas de crédito, de subsídios e de reforço de renda –
adotado pelo governo Lula neste ano, de olho na eleição presidencial. Há quem
calcule que essas medidas podem adicionar quase 1,5 ponto porcentual ao PIB de
2026. Para compensar, em parte, esse forte impulso fiscal, afetando a inflação
e as expectativas inflacionárias, muitos analistas defendem uma política
monetária mais dura do que se imaginava.
Se, hoje, o Copom decidir cortar a Selic de 14,50% para
14,25%, como ainda é a aposta da maioria dos analistas, em razão da sinalização
dada na sua última reunião, há um risco real de descontrole das expectativas de
inflação. O espaço para corte ficou exíguo. Resta saber se a ficha caiu para o
BC.

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