Clarice Herzog, que completa 85 anos, dedicou a vida à
luta por memória e justiça em um país que insiste em apagar os fatos
Amanhã, Clarice Herzog faz 85 anos. Ela ainda está aqui.
Como Eunice Paiva, perdeu o marido assassinado pela ditadura, lutou por memória
e justiça e agora chega ao ocaso em meio ao Alzheimer. Deve haver um
significado profundo, que o país ainda não alcançou, o apagamento das
lembranças na mente de guerreiras que lutaram para que o Brasil não se
esquecesse. O país que insiste em esquecer.
Clarice é uma voz que permanecerá na história do Brasil.
Quando Vladimir Herzog morreu, ela foi a primeira a gritar “Mataram o Vlado”.
Zuenir Ventura me disse, certa vez, que esse grito dela aos jornalistas foi a
hora primeira da resistência à mentira que a ditadura sustentou sobre a morte
no II Exército. Quando tentavam enterrar às pressas o corpo do Vlado, ela
gritou “Não enterrem”. Assim ela conseguiu que esperassem a mãe do Vlado, dona
Zora, chegar para o enterro do filho único.
Ela continuou vocal e forte todos os anos
da vida, a vida inteira, até que o silêncio se impôs pela doença. Em 1978, em
plena ditadura, ela conseguiu que a Justiça responsabilizasse a União pela
morte de Vladimir. Era inédito o processo e a sentença virou histórica.
A preocupação de Clarice não era vingança, não era
indenização. Ela queria, como me disse um dia, que o país não se esquecesse.
— Fui à Justiça porque era a Justiça. Eles estavam matando
pessoas. Queria mostrar que isso estava acontecendo no país. Eu tinha que fazer
por mim, meus filhos e o país. Eu tinha que provar que ele foi assassinado.
Não foi fácil achar defensores da sua causa. Zuenir foi ao
jurista Heleno Fragoso, o primeiro a aceitar. Depois, veio Sérgio Bermudes. Em
São Paulo, a causa foi defendida por Marco Antonio Rodrigues Barbosa e Samuel
MacDowell. Mas a ditadura impetrou mandado de segurança para que o juiz João
Gomes Martins não julgasse o caso e, em seguida, o aposentou. Um outro
magistrado, jovem, começando a carreira, herdou o caso e não se intimidou:
Márcio José de Moraes condenou a União pela morte de Vladimir Herzog. Zora
escreveu ao juiz. “Minha dor não tem consolo. Meu filho não voltará, mas seu
bom nome não ficará manchado”. Entrevistei Márcio José de Moraes anos atrás e
ele me disse “o Brasil descumpriu a ordem judicial”.
Clarice persistiu no mesmo caminho. Em 24 de maio de 2017, a
Corte Interamericana de Justiça estava ouvindo as partes no processo que ela
moveu contra o Estado brasileiro. De novo, se ouviu a voz de Clarice. O
criminalista Alberto Torón, contratado pelo governo Temer, disse que não
poderia haver punição dos assassinos porque “a coisa julgada não pode ser
ofendida”, Clarice da plateia gritou: “Não é nada disso. Está tudo errado.”
Aquele julgamento, e a audiência com as partes, era o
retrato do pior lado do Brasil. Michel Temer, o sétimo presidente da
democracia, em vez de reconhecer o erro da ditadura, mandou oito pessoas, entre
elas um general, contratou Toron, e todos foram defender o indefensável. O de
que o país já tinha feito o possível. O Brasil que jamais condenou um único
torturador estava ali para sustentar que nada mais havia a fazer. O momento em
que uma jovem advogada da Advocacia-Geral da União interroga Clarice e tenta
colocá-la em contradição —“mas a senhora recebeu certidão oficial certificada”
— é de ter vergonha do país.
O Brasil acabou condenado, Clarice venceu esta também. Seu
depoimento é um primor. Humano e corajoso. Contou da tragédia de Dona Zora
atravessando a fronteira da Alemanha com o filho nos braços para ele não ser
morto pelos nazistas. O abrigo na Itália e o refúgio final no Brasil onde ela
achou que seu filho estava em segurança. Quando o presidente da Corte disse que
valorizava a presença dela ali, Clarice respondeu: “eu é que agradeço a
oportunidade. Um cara maravilhoso, do bem, o meu marido. Que morreu apanhando,
um horror”.
Enquanto lutava por memória neste país que apaga os fatos e
rasura a história, Clarice criou os filhos, fez carreira como pesquisadora
qualitativa de opinião pública, criou o Instituto Vladimir Herzog para ser uma
trincheira pública pelos valores democráticos.
Um dia, eu soube pelo seu filho Ivo que ela queria me
visitar no Rio. Eu pensei em tudo o que serviria no almoço e a esperei com
alegria. Infelizmente era o início da pandemia e ela não pôde vir. Essa quase
visita me emociona. Eu a imagino chegando. Eu a abraçaria e diria: “Bem-vinda,
Clarice, heroína do Brasil.”

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