Durante aquelas semanas de 1998, não houvera na cidade de
São Paulo nenhum crime, nem mesmo crime violento. O mesmo em outros lugares do
país
Quando da Copa de 1998, resolvi fotografar os torcedores no
Vale do Anhangabaú diante do telão. Não vi os jogos. Vi emoções e expressões.
Vi o inesperado. O centro da cidade, de lugar do desencontro
tenso dos pedestres, desconfiados e antissociais, em questão de alguns minutos,
tornara-se lugar de encontro. O centro de São Paulo era conhecido e temido pela
ação dos chamados “trombadinhas”, as crianças e adolescentes que assaltavam
transeuntes desatentos. Mas havia, também, os “trombadões” que assaltavam
idosos e pessoas claramente vulneráveis.
O centro revelava sua face oculta. A suspeita de que as
pessoas em situação de rua eram inimigos da sociabilidade civilizada e
acolhedora revelava-se profundamente injusta. Comportavam-se como anfitriões,
donos e conhecedores da rua. Conversavam com os forasteiros contentes com tanta
gente diferente entrando em suas casas: a rua.
Pessoas em situação de rua enturmaram-se
com os demais participantes da multidão. Inúmeras pessoas vindas dos bairros
distantes, bairros ricos, madames bem-vestidas, bairros operários e de classe
média. Vieram para ver a Copa e “ver o povo”. “São iguais a gente”, comentou
uma grã-fina.
À medida que as partidas se desenvolviam, com seus momentos
emocionantes de alegria ou de tristeza, manifestações claras de solidariedade e
de apoio recíproco se multiplicaram. De repente um trombadão abraçado com uma
madame. Ou uma pessoa em situação de rua, com um cachecol elegante ao redor do
pescoço, seu traje de gala, levara num carrinho de supermercado seu gato de
estimação. Explicou-me que quase tudo que conseguia como pedinte gastava com o
gato. Veterinário, remédios, comida. O gato era o ser humano do tabique em que
morava com o bicho. Seu alter ego.
Eu estava diante de um fenômeno sociológico pouco estudado
numa das suas variantes mais inesperadas. O mundo invertido da sociabilidade de
multidão. Gustave Le Bon, pioneiro no estudo do assunto, já havia constatado
que a situação de multidão promove a emergência, em cada participante, de uma
segunda e inesperada personalidade. O eu oculto do avesso.
Minha pesquisa, no Brasil, de 2.028 casos de linchamentos e
tentativas de linchamento, mostrou-me que somos portadores de uma variante
profunda da estrutura de personalidade que se manifesta em momentos sociais de
medo ou de euforia, nas situações sociais de multidão. As pessoas se tornam
irreconhecíveis se confrontadas com os padrões cotidianos de sociabilidade.
Uma indicação de mudança de personalidade e de comportamento
apareceu nos relatórios policiais relativos aos dias da Copa. Durante aquelas
semanas, não houvera na cidade de São Paulo nenhum crime, nem mesmo crime
violento. O mesmo em outros lugares do país. Nem linchamentos, a que a situação
de multidão é propícia. O primeiro linchamento ocorreu em outro estado poucas
horas depois do fim da Copa, com a vitória da França sobre o Brasil por 3 x 0.
Na expectativa da vitória, uma sociedade como a nossa tem
comparativamente poucos campos socialmente reconhecidos de afirmação de sua
identidade. E insuficientes informações para motivos de orgulho nacional. A
emoção da Copa aglutina monumentais emoções identitárias no Brasil pobre delas.
Não obstante haja todos os dias motivos, mas não motivações,
para nos orgulharmos com o que muitos brasileiros altruisticamente fazem. Somos
um povo criativo e capaz.
Algumas de nossas universidades estão em posições de
destaque internacional nos índices de excelência, a USP reiteradamente em
primeiro lugar. No entanto, o Brasil do noticiário cotidiano é outro, o dos
corruptos e oportunistas. O país inteiro é colocado nas páginas policiais tal a
força que a delinquência alcançou entre nós.
Os desafios e esforços do trabalho científico nas
universidades brasileiras raramente viram manchete. Se os índices da USP caem
um ou dois por cento em relação ao ano anterior, embora continue em primeiro
lugar, é essa queda que tem destaque.
Aparentemente não sabemos a diferença entre uma descoberta
científica e uma vitória em partida de futebol. Embora a universidade se refaça
todo o tempo para ser melhor do que foi no ano anterior. O que a faz a primeira
da lista latino-americana na formação de um número crescente de cientistas em
todas as áreas de conhecimento.
Diferentemente de uma partida de futebol, isso não se dá por
acaso. Pública, laica e gratuita, como a propôs seu fundador, Júlio de Mesquita
Filho, a USP foi criada menos de meio século depois da abolição da escravatura,
quando o Brasil era um país de analfabetos. Quando as grandes universidades do
mundo tinham mais de 600 anos de fundação. Hoje a USP e outras universidades
brasileiras competem com elas e são respeitadas.
*José de Souza Martins é sociólogo. Professor
Emérito da Faculdade de Filosofia da USP. Professor da Cátedra Simón Bolivar,
da Universidade de Cambridge e fellow de Trinity Hall (1993-94). Pesquisador
Emérito do CNPq. Membro da Junta de Curadores do Fundo Voluntário da ONU contra
as Formas Contemporâneas de Escravidão, em Genebra (1996-2007. Entre outros
livros, é autor de “Desavessos” (Editora Com Arte).

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