Vídeo foi planejado em detalhes, com cenário, roteiro e
teleprompter
Ex-primeira-dama cita Valdemar Costa Neto e lideranças do
PL Mulher como aliados
Michelle
Bolsonaro publicou um vídeo
explicando por que não apoiará Flávio.
O que me interessa não é o que ela diz, mas o que ela faz a partir desse ato e
as perguntas que isso levanta.
Michelle tomou essa atitude sem consultar ou pedir
autorização ao marido? Porque ela não diz falar em nome de Jair e
não faz sentido que ele ataque o filho. Seu primogênito é pré-candidato à
Presidência da República escolhido por ele próprio. Não me lembro de outro
gesto da ex-primeira-dama demonstrando essa autonomia contra o interesse
familiar.
Qual é o objetivo, além de prejudicar as chances de Flávio
na corrida presidencial, ao apresentá-lo e aos irmãos como pessoas que atacam
uma mulher —a esposa do pai— tratando-a como ingênua nas palavras dela, para
apoiar um inimigo político em nome do pragmatismo?
Ela tem motivos para agir. Ao tomar a
frente como candidato do bolsonarismo, Flávio tirou de cena o projeto de chapa
entre Tarcísio e
a própria Michelle. A dobradinha era tida como a mais viável para vencer Lula —juntava
a experiência de Tarcísio como governador aprovado de São Paulo com a força da
ex-primeira-dama levando mulheres, inclusive evangélicas pobres, atraídas a
Lula.
O Ministério Madureira da Assembleia de Deus já declarou
apoio aberto a Caiado, e outros pastores não escondem o desejo de seguir o
mesmo rumo —apenas temem o desgaste dessa escolha dentro de suas denominações.
Michelle quer vingança, quer uma chapa, ou outra coisa?
Ela calculou suas ações em detalhes. Seu vídeo é uma peça
publicitária que conta com cenário —diplomas ao fundo, símbolo de libras e
estrela de Davi, taça de cristal clássica. Havia um roteiro elaborado. Havia um
teleprompter para ela ler. Esse planejamento supõe que existem outras pessoas
atuando em nome dela.
E quem então faz parte desse núcleo duro em torno de
Michelle? Ela cita alguns nomes em sua fala. O mais conhecido é o do presidente
do PL, Valdemar
Costa Neto. Ela também defende o grupo de lideranças que constituiu por
meio da presidência do PL
Mulher.
Podemos supor que ela esteja dialogando com pastores como
Robson Rodovalho, da Sara Nossa Terra, que visitou Bolsonaro na prisão? E o
pastor Silas
Malafaia, a liderança que tem criticado Flávio publicamente? E os
evangélicos ligados ao governo Bolsonaro, da Igreja Presbiteriana, como o
ministro André
Mendonça?
Finalmente, cabe perguntar qual é a eficiência desse ataque
à pré-candidatura de Flávio. Houve a revelação de que ele mentiu
sobre não conhecer o ex-dono do Master, Daniel
Vorcaro. A informação veio de dentro —mas de quem? Não parece haver pressão
para que se revele o destino verdadeiro dos milhões pagos por ele ao clã, com o
objetivo inicial de financiar o filme.
Mesmo acuada, a pré-candidatura resiste. Nem Zema nem Caiado têm
ganhado tração nas pesquisas. Apesar do que já foi revelado, Flávio segue sendo
visto como o nome com mais chances de vencer Lula no segundo turno. Ele recebeu
a bênção do pai e os adversários até agora se mostraram submissos a esse desejo
de Jair.
A estratégia do círculo de Flávio parece ser apresentar esta
eleição como um plebiscito sobre Lula e o PT. Eleitores da
direita entendem que a meta maior é tirar o presidente, independentemente de
quem for ocupar essa posição. E Flávio se consolidou como a opção mais viável
para esse confronto, pelo menos no primeiro turno.
Devemos analisar os vídeos de Michelle a partir desse
cenário. Ela foi figura importante no PL ao longo dos últimos anos, mesmo
depois de deixar a Presidência. Teve recursos, infraestrutura, prestígio.
Agora, com Flávio, ela e seu grupo vêm sendo maltratados, expostos e
desmerecidos.
Será que a ex-primeira-dama terá vaga para concorrer ao
Senado? E quem será ela no partido caso Flávio seja eleito?
Esse parece ser o motivo mais razoável para a atuação de
Michelle. Ela demonstrou que quer negociar um espaço no PL antes do início da
campanha. Para continuar relevante em 2030, em um cenário sem Lula, ela e seus
interlocutores próximos —especialmente evangélicos— precisam mostrar a força
que têm hoje.
*Antropólogo e historiador, autor de 'Crentes' (Record) e
'Povo de Deus' (Geração), pesquisa cristianismo, mundo popular, mídias digitais
e esportes de combate

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