A tática da extrema-direita de demonizar os adversários
representa uma afronta ao Estado laico e à própria democracia, que pressupõe o
respeito à pluralidade
Na quinta-feira 4, feriado do Corpus Christi, a cidade de
São Paulo abrigou a já tradicional Marcha para Jesus, capitaneada pelo casal
Estevam e Sônia Hernandes, líderes da neopentecostal Igreja Apostólica Renascer
em Cristo. Como de costume, além de milhares de fiéis, marcaram presença na
manifestação religiosa diversos políticos, quase todos de direita ou
ultradireita. Dentre eles destacavam-se o governador paulista, Tarcísio de
Freitas, o prefeito paulistano, Ricardo Nunes, e o candidato presidencial do PL
e de sua família, Flávio Bolsonaro. Mais discretamente compareceu o
advogado-geral da União, Jorge Messias, cumprindo o duplo papel de representar o
governo Lula e os evangélicos de esquerda.
Também como de hábito, os políticos
direitistas fizeram da Marcha um evento
político-partidário, neste ano especialmente eivado de caráter eleitoral. E
o filho Zero Um de Jair Bolsonaro não aliviou na vinculação entre religiosidade
e proselitismo polarizador. Do alto de um palco, envergando uma camisa azul Lacoste
estampada com o tema do evento, desafinou um hino gospel e proclamou não estar
ali como candidato, mas como cristão. Apesar dessa ressalva, logo emendou:
“Vamos orar pelo nosso Brasil, essa guerra é espiritual. E, hoje, é a maior
resposta que nós podemos dar ao mundo do mal, que vai ser expulso do governo
desse Brasil esse ano. Em nome do Senhor Jesus, Amém!” Para expressar mais
claramente seu intento e o sentido de sua intervenção, talvez devesse ter
substituído “orar” por “votar”. Mais do que orações, inclusive para seu pai em
prisão domiciliar, Flávio pedia votos.
Não se trata de mera instrumentalização da fé pela política,
por si só algo inaceitável num Estado laico. Há outro aspecto especialmente
preocupante nessa manifestação do candidato de ultradireita: a transformação da
disputa democrática numa contenda entre o bem e o mal absolutos. A noção de
guerra espiritual por ele invocada supõe um enfrentamento entre as forças de
Deus e as de Satanás. E, para que não houvesse dúvida, Flávio deixou claro que
o mal deveria “ser expulso do governo do Brasil”, no momento ocupado pelo
presidente Lula, do PT. A demonização dos oponentes, aqui, não é apenas
metáfora, foi feita diretamente.
Nisso, justiça seja feita, Flávio não inovou, nem sequer no
âmbito do bolsonarismo. Na campanha de 2022, sua madrasta, Michelle Bolsonaro,
repetiu essa mesma cantilena em repetidos eventos pelo Brasil. A então
primeira-dama foi bem clara ao descrever a destinação dada às dependências do
governo pelos antecessores de seu marido (por seguidos mandatos, petistas):
“Durante muito tempo, aquele lugar foi consagrado a demônios, cozinha
consagrada a demônios, Planalto consagrado a demônios, e hoje é consagrado ao Senhor
Jesus”, disse ela num culto-comício realizado em Belo Horizonte, na Igreja
Batista da Lagoinha – a mesma frequentada por Daniel Vorcaro e seus parentes.
Assim, enquanto o exercício governamental pelos adversários teria significado
consagrar o País e seu governo a Satanás, a gestão de seu marido os exorcizara,
colocando-os nas mãos de Deus.
Tal associação não foi esporádica, mas um mantra da
primeira-dama naquela campanha eleitoral. Noutro culto-comício, desta feita em
Goiânia, disse Michelle: “A gente luta contra a luz das trevas, contra o mal
que quer ser instalado no nosso País. E a gente vê como o inimigo é sujo, é
astuto, agindo dentro da casa do Senhor”. Em Porto Alegre, ressignificou a
sigla do PT: “Precisamos dissipar esse câncer que foi o Partido das Trevas do
Brasil. Estamos vivendo uma guerra espiritual do bem contra o mal”. Em Brasília,
pontificou: “Não estamos lutando contra homens e mulheres, mas contra
principados e potestades. É uma guerra espiritual. Só não vê, só não enxerga
quem não quer. Aquele que é baseado na palavra, tem sua fé fundamentada na
Bíblia, sabe que nós estamos lutando contra as hostes espirituais malignas”.
Tal discurso é incompatível com a democracia, pois esta
supõe o pluralismo, no qual posições divergentes e adversários são legítimos.
Imputando-lhes uma natureza demoníaca, em mensagens destinadas a um público
para o qual tal diferenciação é uma questão existencial, o bolsonarismo
sinaliza que seus oponentes não são partícipes legítimos do jogo democrático,
mas diabos traiçoeiros. E, na guerra contra tais entidades, qualquer recurso é
lícito – mesmo a violência.

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