De um ponto de vista geopolítico, esta Copa do Mundo é um
projeto frustrado. A Fifa optou por um caminho, a propósito, ampliando de 32
para 48 o número de participantes. Estados Unidos, México e Canadá, quando
resolveram hospedar o torneio, pensavam em projetar a imagem de uma América do
Norte unida, próspera e, até certo ponto, aberta para o mundo. Mas, no meio do
caminho, havia a rígida política migratória de Donald Trump.
O presidente da Fifa, Gianni Infantino, ainda tentou bajular
Trump com um prêmio da paz que ele mesmo inventou para compensar a frustração
com a perda do Prêmio Nobel. Além da rígida política migratória, Trump decidiu
entrar em guerra contra o Irã, um dos países que participam da Copa. Resultado:
os ares da guerra foram transplantados para o campo esportivo. A seleção do Irã
disputa jogos nos Estados Unidos, mas seus jogadores são obrigados a dormir no
México. Dois deles nem sequer conseguiram entrar nos Estados Unidos, assim como
alguns membros da delegação. Gianni Infantino foi visitar o time do Irã no
vestiário, fez uma preleção edificante e ouviu os lamentos de um país que,
neste aspecto esportivo, está sendo discriminado.
Os problemas não pararam aí. Na verdade, continuaram com a
decisão americana de barrar um competente árbitro de futebol. Foi recebido como
herói nacional ao voltar ao país. Isso apesar de Omar Artan vir de um país
pobre, com pouca tradição esportiva. Nas suas divergências com a deputada Ilhan
Omar, que nasceu na Somália, é muçulmana e democrata, Trump já se referiu a
esse país africano como um lixo.
Outro país africano, Senegal, sofreu com a aduana americana.
Os jogadores foram severamente inspecionados como se houvesse algum problema
especial de segurança com os senegaleses. Eram africanos, só isso.
Diante de tantas atitudes de discriminação numa Copa que se
pretende inclusiva, um jornal francês fez uma charge de Gianni Infantino, como
se fosse um fantoche de Trump.
Quem não se lembra do rigor da Fifa para que o Brasil
hospedasse a Copa do Mundo? Cento e quarenta e uma exigências, além de um
Caderno de Encargo. Além de isenções de impostos, a entidade exigia vistos
rápidos, assim como autorização de trabalho. O processo revelou uma Fifa dócil
diante dos Estados Unidos e com um comportamento imperial diante do Brasil.
Em 2026, a Copa é para nós, brasileiros, um processo mais
tranquilo. Não foi assim no tempo do governo militar, na Copa de 1970. Os
generais, ávidos de popularidade, foram aconselhados a se meter com o futebol.
Garrastazu Médici fazia embaixadinhas diante de fotógrafos. Muitos quadros de
esquerda pensaram em torcer contra o Brasil para que a ditadura militar não
capitalizasse a vitória. Na hora do jogo mesmo, os cálculos políticos desabavam
e todos gritavam “vamos, Brasil”.
Um dos grandes nomes daquele período foi o técnico e
jornalista João Saldanha. Os militares queriam que ele convocasse Dadá
Maravilha, um jogador do Atlético Mineiro, para a seleção. João se recusou e
disse que o presidente escalava seu ministério, mas ele é quem escolhia os
jogadores da seleção.
Nos dias de hoje, o conflito está bem atenuado. Os
candidatos usam a camisa amarela da seleção porque todos torcem para ela. O
único argumento de Flávio Bolsonaro é o de que Lula usa a camisa durante a Copa
do Mundo, e ele usa o ano inteiro. Mas de vez em quando levanta a bandeira dos
Estados Unidos, diriam os adversários. O peso dos debates sobre a Copa do Mundo
não é mais o mesmo porque nosso futebol decaiu, tem escassas chances de vitória
final, daí a relativa frieza. As causas da decadência ainda não foram
profundamente discutidas. Ainda temos grandes nomes no futebol europeu, alguns
jovens promissores, mas aquele Brasil do passado não existe mais.
No momento, esboça-se uma crítica à CBF, mas é um problema
de costumes. Segundo algumas notícias, o presidente da entidade teria levado a
esposa e a amante para a Copa, hospedando uma no México e a outra nos Estados
Unidos. Nesse enredo jornalístico, seu destino é parecido com o da delegação
iraniana. Ele joga nos Estados Unidos e dorme no México, ou vice-versa, quem
saberá de seus segredos.
A verdade é que, assim como a Copa não tem o impacto
geopolítico imaginado há algum tempo, o futebol brasileiro perdeu um pouco de
sua magia e da capacidade de ser uma dimensão do nosso soft power.
Não maravilhamos mais o mundo com a habilidade dos pés, mas
sempre é tempo para achar talento em outras partes do corpo – o cérebro, por
exemplo. Na verdade, se a performance do Brasil for desapontadora como foi
sugerido na estreia, certamente abre-se o caminho para uma grande reformulação
no futebol brasileiro, a começar pelo campeonato nacional, os processos de
formação de base, uma maior introdução da tecnologia, enfim, elementos que
estão presentes em seleções que nos desafiam e que, há apenas alguns anos, eram
facilmente batidas pelo Brasil.
Toda essa energia que vemos, nascida do impulso comercial de
ganhar dinheiro com a paixão do brasileiro por torcer pelo nosso time na Copa,
precisa apoiar a renovação. A possibilidade de a fonte secar é muito grande.
Artigo publicado no jornal Estadão em 19 / 06 / 2026

Nenhum comentário:
Postar um comentário