Maria Bethânia chega aos 80 anos com a altivez intacta do
canto sobrenatural que educa, comove e, não raro, inebria
♬ Nascida em 18 de junho de
1946, Maria Bethânia chega
hoje aos 80 anos com trajetória inatacável, pautada pela altivez do canto
sobrenatural que educa, comove e, não raro, inebria.
Movido pela espiritualidade que rege a artista, espécie de
divindade no panteão da MPB com quem (quase) ninguém ousa mexer, esse canto
atinge os rincões mais profundos do Brasil sem deixar de cantar as dores de
amores comuns a toda a gente do campo ou da cidade.
O canto de Bethânia educa porque, através dele, versos de
poetas como Fernando Pessoa e Clarice Lispector escaparam dos nichos literários
e chegaram aos ouvidos do grande público interpretados por uma cantora que
também nos pega pela palavra. Educa por transitar pela estrada de um sertão que
resiste aos vícios e hits da industrialização. Por conduzir o público do Brasil
às rodas da cidade natal de Santo Amaro da Purificação (BA), norte do canto da
artista.
A força motriz de Bethânia também vem da voz da mãe,
Claudionor Vianna Telles Velloso (1907 – 2012), a Dona Canô, a que está em tudo
que Bethânia canta, das louvações aos santos e orixás aos sambas-canção da era
do rádio.
Bethânia não vai na onda. Bethânia traz a onda, aponta o que
ninguém via, propõe que se atente para um compositor. O que seria de Roberto
Mendes e de outros grandes compositores de Santo Amaro sem a voz-guia de
Bethânia a mostrar uma obra que, sem a projeção nacional da intérprete, talvez
tivesse ficado conhecida somente em redutos locais?
O canto de Bethânia também comove porque a voz grave sabe
transitar entre a delicadeza e a dramaticidade com inteligência rara.
Admiradora de Dalva de Oliveira, estrela da era do rádio,
Maria Bethânia embute alta carga de teatralidade no canto. Esta é a marca da
artista desde que, em fevereiro de 1965, a debutante subiu ao palco de teatro
do bairro carioca de Copacabana para alçar um voo sem volta pelo Brasil a
partir do canto de “Carcará”.
Contudo, dona do dom e das emoções, também sabe baixar os
tons se assim lhe convém para ruminar mágoas, solidões, ressentimentos ou
vinganças. Mas quando sempre canta nas alturas, com as veias abertas para a
emoção, os olhos imponentes nos olhos embevecidos das plateias.
Avessa a rótulos e a modismos, Maria Bethânia atravessou
seis décadas de carreira com fidelidade a si mesma. Lutou para ser Maria
Bethânia e, quando cedeu, como no caso da sugestão do executivo Marcos Maynard
para que gravasse em 1993 um álbum com canções de Roberto Carlos, o fez sem
baixar a cabeça, com a habitual imponência.
E fez assim porque todas as canções do Roberto, do mano
Caetano Veloso, dos Chicos (tanto o Buarque como César, ambos recorrentes nos
repertórios da intérprete), de Gonzaguinha, de Arnaldo Antunes e de Adriana
Calcanhotto – entre outros compositores – pareceram feitas para ela. Mesmo
quando não foram.
E é comovente a entrega de Bethânia a cada canção. Ela
depura a palavra através do canto que, em cena, abafa arranjos e
instrumentistas virtuosos. Todas as atenções e olhos são para a intérprete.
Por fim, o canto de Maria Bethânia inebria porque tem algo
de sobrenatural ali. Mais do que um canto em si, parece haver uma energia
poderosa quando Bethânia solta a voz e se entrega, palavra por palavra, à magia
do palco, com o brilho dos olhos que nunca arrefeceu em 63 anos de carreira
iniciada ainda em Salvador (BA).
Maria Bethânia é tão grande como a Mangueira que celebrou a
existência da Menina de Oyá no desfile campeão do Carnaval de
2016, por ocasião dos 70 anos da artista. Estação primeira da música brasileira
neste 2026 em que já não há a presença física da maioria das grandes cantoras
de MPB surgidas nos anos 1960, Maria Bethânia carece de explicação, assim como
a Mangueira. Embora a gente tente buscar alguma para celebrar, no dia dos 80
anos da cantora, essa força sobrenatural que ainda parece longe de secar.
♫ Leia outros textos sobre os 80
anos de Maria Bethânia:

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