Ajuste, ajuste e mais ajuste é o lema que infesta o
espírito dos fanáticos da busca do equilíbrio
O grande técnico de futebol Vanderlei Luxemburgo montou
times goleadores, craques da bola. Cunhou um famoso mantra: “O medo de perder
tira a vontade de ganhar”.
Na tribo dos economistas, prevalece a convicção de que “com
menos dá mais”, o mantra diário que inocula nas veias e no inconsciente
coletivo: o medo de ganhar tira a vontade de fazer.
Ajuste, ajuste e mais ajuste é o lema que infesta o espírito
dos fanáticos que repetem: a economia monetária-financeira capitalista deve
buscar o equilíbrio. O equilíbrio acima de tudo. Na contramão dessa crença,
temos a impressão de que as experiências do capitalismo ao longo de todos os
tempos revelam a existência de uma dinâmica amparada nos movimentos do circuito
monetário-financeiro. Movimentos que supõem a alternância entre estabilidade e
instabilidade. Nada de equilíbrio.
A formação da renda monetária do Estado,
das empresas e das famílias está submetida a uma lógica simples: João não
vende. Se não vende, não compra de José, que, por sua vez, não encomenda os
produtos de Mário. Mário deixa de produzir e dispensa seus operários. Os
trabalhadores, despojados dos salários, não compram de João. João reduz ainda
mais suas compras de José. Nessa embalada da contração do circuito mercantil, a
economia afunda e o dinheiro some.
Diante da expectativa da continuidade da queda das vendas, o
dinheiro torna-se “escasso” e a turma corre desesperadamente atrás da grana.
Diriam os economistas: eleva-se a percepção dos agentes quanto à necessidade de
possuir riqueza líquida. Keynes designou essa forma de proteção da riqueza como
“preferência pela liquidez”.
A predominância dessa preferência gera expectativas de queda
cumulativa de vendas e de interrupção de pagamentos, o que provoca uma crise
aguda do sistema bancário. A cambulhada pega duro nos ativos financeiros
distribuídos entre bancos comerciais, bancos de investimento, fundos de pensão
e fundos de hedge, ameaçando as poupanças de ricos, pobres e remediados.
Nas crises deflacionárias, a fecundação recíproca entre as
funções da moeda torna-se acentuada. O colapso da moeda “ativa” – aquela que
circula para a aquisição de bens e serviços – afeta as finanças abrigadas em
depósitos de poupança, títulos privados e públicos. Na deflação, a incerteza
recai sobre o valor dos ativos financeiros.
A função de reserva de valor do dinheiro aprofunda a ruptura
do circuito pelo qual esse mesmo dinheiro facilita, estimula e liquida as
transações. A crise aparece diretamente como “crise monetária” ou “crise do
crédito”. O dinheiro não sai dos bancos, temerosos da inadimplência dos
clientes. A moeda passa a representar a riqueza de forma absoluta e a demanda
por saldos inativos domina os determinantes de sua posse.
“O fato de uma crença exercer bom efeito moral sobre um
homem não constitui prova alguma a favor de sua veracidade.” (Bertrand Russell)
Numa equipe de futebol montada com os nossos professores de
economia, teríamos de dividir um campo de futebol em duas partes. Um campo
para defender e outro para atacar. E, obviamente, com duas bolas: uma para a
turma da defesa e outra para a turma do ataque, tudo sempre equilibrado, tático
e constante! Para ganhar, uma equipe primeiro precisa perder. Interessante essa
lógica racional dos economistas e os trombeteiros da mídia que os seguem. Eles
querem acabar com o jogo de futebol da economia capitalista.
O lema é: primeiro, precisamos poupar para depois gastar.
Parece superlógico, racional, não? De onde vem a renda para podermos poupar, se
ninguém gasta?
De cada dez técnicos de futebol, todos, sem pestanejar,
afirmam que sua equipe tem de ser equilibrada. De cada dez economistas
convencionais, 11 afirmam que a economia tem de ser equilibrada. Se o futebol e
a economia funcionassem de forma equilibrada, todas as partidas de futebol
terminariam empatadas, portanto, analogamente, a economia permaneceria parada.
Nas Copas do Mundo da bola, nada ganhamos nos últimos 24
anos no futebol. Criatividade, improviso e a técnica se perderam na rigidez
tática de esquemas matemáticos, 3-5-2, 4-4-2, 4-3-3, 4-2-4, 4-1-4-1, 4-3-2-1.
Quem rompe as linhas de marcação, quem dribla, vale fortunas. O inventivo, o
diferente e o criativo, raros no mundo equilibrado dos iguais. A mão
invisível do drible. Os que não têm medo de ganhar. O pentacampeão mundial de
futebol também já foi o país que mais cresceu no mundo, entre 1930 e 1980.
Há mais de 40 anos não crescemos de forma
sustentável. Naqueles tempos do desenvolvimento, crescíamos mais que a
China. Não tínhamos medo de ganhar. Somos o país do já foi. O estilo de jogo da
Seleção Brasileira reflete o país: individualidade sem coletivo e, o que mais
chama atenção, não saber atacar.
Num time com nossos professores de economia, parte do campo
seria para defender, parte para atacar
Na economia, o país do crescimento durou 40 anos. Ajuste
fiscal, ajuste fiscal, ajuste fiscal, berram todos os dias, na arquibancada e
na mídia tradicional, os sabichões da Economia. Se igualam aos comentaristas
“especializados” em futebol. Repetem estatísticas e jargões para esconder as
verdades do capitalismo, sejam elas quais forem.
Sem gasto e investimento, aí sim, teremos calote na dívida
privada, quebra de bancos e depressão econômica. O dinheiro some, evapora. No
jargão futebolístico, caímos para a quarta divisão. Nessa hora, os torcedores
clamam por um mecenas que dê uma injeção de capital nos seus times de coração.
Nessa hora, economistas e banqueiros clamam o salvamento pelo Estado: por
favor, façam dívida pública e comprem nossos ativos podres, depreciados e sem
liquidez.
A dona de casa é apresentada como exemplo a ser seguido pelo
Estado na busca do equilíbrio fiscal, cantilena diária dos
“equilibristas”. Nas arquibancadas, os papas das expectativas racionais gritam:
o Estado tem de ser como a dona de casa, só gasta o que arrecada. O Estado, à
semelhança da pobre dona de casa, está endividado. Para os sacerdotes da
Crematística, o infeliz vai precisar do cartão de crédito para cobrir os
gastos.
“O autoengano pressupõe que a distinção entre a verdade e a
falsidade, entre a realidade e a fantasia, desaparece numa cabeça que se
desligou dos fatos. No campo político, onde o segredo e a dissimulação sempre
desempenharam um papel importante.” (Hannah Arendt)
As mentiras são necessárias quando a verdade é muito difícil
de acreditar. Nem no futebol nem na economia faz tempo que não ganhamos nada.
Até quando?
O medo de ganhar tira a vontade de fazer.
Publicado na edição n° 1419 de CartaCapital, em 30
de junho de 2026.

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