Com apenas dois aliados, Mendonça assume posto de ‘líder da minoria’ no STF
Mesmo com delação de Daniel Vorcaro rejeitada, ministro
mostrou em julgamento que não vai aliviar para autoridades nas investigações
sobre o Banco Master
André Mendonça pode até integrar uma ala minoritária no
Supremo Tribunal Federal (STF) pelas ideias que defende e pelos votos que
profere. Mas, na última terça-feira, saiu da sessão da Segunda Turma
consolidado como líder da minoria na Corte, para pegar emprestado um termo do
Congresso Nacional.
Por três votos a um, o colegiado confirmou a decisão do
relator das investigações sobre o Banco Master de manter presos o pai e o primo
de Daniel Vorcaro. Com apenas quatro ministros votantes, Mendonça só precisava
de dois aliados para sair vencedor.
O relator contou com uma dose de sorte. No
Supremo, Mendonça tem dois apoiadores fiéis, que concordam com ele em matéria
penal: Kassio Nunes Marques e Luiz Fux. Coincidentemente, os dois integram a
Segunda Turma.
Depois que Dias Toffoli se declarou impedido para julgar o
caso Master, o caminho de Mendonça rumo à maioria ficou menos tortuoso. Apenas
Gilmar Mendes defendeu que os investigados fossem transferidos para a prisão
domiciliar. Nas sessões de turma, Gilmar costuma fazer uma dobradinha com
Toffoli. Desta vez, ficou isolado.
Gilmar, porém, não facilitou para Mendonça. Fez críticas
quanto à condução das investigações e comparou os métodos aos da Lava Jato. No
fim, o relator falou mais alto. Alegou que não prendia ninguém para forçar
acordo de delação e defendeu sua posição com a voz empostada de pastor
evangélico. Aproveitou para falar do caso Master como nunca tinha feito antes
em público. Revelou que a defesa “perdeu o pudor” ao propor uma delação
seletiva. “Falaram na minha cara isso. Eu disse: ‘Não faço questão de delação.
Agora, delação seletiva? Comigo, não!’”
Gilmar representa um grupo do Supremo insatisfeito com o
rumo das investigações do Master. Alexandre de Moraes e Toffoli fazem coro ao
colega. Os dois tiveram ligações com Vorcaro expostas ao longo das
investigações. Mas, como relator do escândalo do Master, Mendonça pode abdicar
da maioria numérica dos ministros do Supremo. Ter vitória garantida na Segunda
Turma é suficiente, porque é lá que as questões referentes ao Banco Master
serão julgadas.
Não satisfeito com a votação na turma, Mendonça mirou a
aprovação da opinião pública ao divulgar, pouco antes do julgamento, novas
provas da investigação que reforçavam a necessidade de manter o pai e o primo
de Vorcaro atrás das grades.
Ou seja: o ministro está disposto a incomodar colegas do STF e a classe política em meio ao período eleitoral. A recusa à delação de Vorcaro fez Brasília respirar aliviada por apenas um dia. O clima tenso voltou a assombrar os três Poderes a partir do julgamento de terça-feira.

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