Existência política que lhe é permitida, limitada, deriva da
condição circunstancial de mulher do pai
É preciso lembrar que a direita brasileira está no
pós-Bolsonaro; e que a escolha do primogênito Flávio Bolsonaro como candidato
do bolsonarismo, o cavalo puro sangue designado a encarnar o pai, é produto
sobretudo da necessidade de a família Bolsonaro manter – reafirmar – a
hegemonia sobre essa propriedade.
Jair está fora de combate, perseguido e injustiçado, esse é
o texto; Flávio sendo aquele sacrificado cuja matéria incorpora o pai,
conjuntura em que a derrota eleitoral se converteria em discurso de vitória,
protegido o patrimônio político, defendida a empresa familiar que Bolsonaro
criou dentro da máquina do Estado.
Território desde o qual – pensando em 2030 – dois projetos de poder se
desenvolvem e chocam. Nenhum deles de Flávio, ambos avançando à revelia do que
seriam os interesses da candidatura lançada para 2026.
Não há puros nessa peleja patrimonial por liderança e
controle. E não será somente Eduardo Bolsonaro a tocar agenda própria e nociva
às chances eleitorais do irmão. Michelle Bolsonaro faz o mesmo contra o
enteado. A diferença está na forma da reação de Flávio, dura apenas para com a
madrasta, expressão da natureza conspiracionista do bolsonarismo.
Ela não é Bolsonaro. O bolsonarismo é puro-sanguista. Ela
não tem sangue Bolsonaro. É forasteira. Oportunista. Traidora certamente,
quando faltar Jair.
Assim se organiza o pensamento bolsonarista. Note-se que o
bolsonarismo eduardista – o que estará sempre mordendo, para que Flávio possa
encenar moderações – refere-se a Michelle com o nome de solteira. A existência
política que lhe é permitida, limitada, deriva da condição circunstancial de
mulher do pai. Nenhuma novidade, se lembrarmos também de que Bolsonaro lançou o
filho Carlos – contra a mãe – em contenda pelo que seria a cadeira da família
na Câmara do Rio, trono que a então ex-mulher pretendia conservar. Ela não era
Bolsonaro; só autorizada a usar a franquia. Separada, não poderia querer a
reeleição. Carlos a venceu. Matou a própria mãe.
Os irmãos se unirão para vencer – matar – Michelle. Ela é
uma ameaça sem precedentes ao que os filhos de Jair concebem como poder
hereditário. Se todos ali chegaram aonde chegaram sendo beneficiários de
transferências do patriarca, não será exagero dizer que, a partir do capital do
mito, somente Michelle teria constituído persona pública com possibilidades de
prosperar autonomamente. O roteiro do vídeo profissional que publicou é
expressivo de alguém que tem, e sabe que tem, existência individual. Michelle não
precisa de Flávio hoje. Flávio precisa de Michelle já.
A direita brasileira está sob o que seria a primeira etapa
do pós-Bolsonaro, com o ex-presidente preso e doente, alijado da atividade
política direta, fase em que se disputa também a prerrogativa de lhe ser
porta-voz. Desnecessário sendo descrever o vale-tudo até onde irá o conflito
quando não houver mais Jair.

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