Perto de nós existem outros como Vilmar. Pessoas com nome
e CPF, mas lançadas à margem da sociedade
Não era apenas um objeto. O homem largado sobre a
cadeira de rodas era um ser humano. Repleto de sonhos, de frustrações. Quem
sabe de amores perdidos ao longo da vida? Talvez por ser uma pessoa em situação
de rua, o homem foi apagado aos olhos dos outros. Morreu dentro da Unidade de
Pronto Atendimento (UPA) de Recanto das Emas, em circunstâncias que estão sendo
apuradas. De repente, o homem deixou este mundo. Parou de respirar. O corpo,
inerte sobre a cadeira de rodas, somente foi percebido tempos depois por uma
mulher, enfermeira, que estava na sala de espera com o marido. Mas era
tarde demais.
O homem apagado estava sem sinais vitais.
Virou número, estatística, dado que provavelmente será usado para evitar novos
apagamentos em unidades de saúde. No dia seguinte, ganhou identidade pelas
autoridades: Vilmar da Silva, 49 anos. Antes de morrer, contou a um grupo de
religiosos que não se alimentava havia 15 dias. Acredita-se que estivesse ali
para se proteger do frio e para aliviar a sede. Dessa vez, parece ter sido
ignorado. Até partir.
Outros homens, mulheres e crianças apagados cobram o preço
de sua mera existência mundo afora. Os palestinos sofrem apagamento quase
diariamente. Bombardeios israelenses arrastaram para a morte dezenas de
milhares de moradores da Faixa de Gaza. E o mundo se cala, parece
acostumado à política de matança. Dia desses me deparei no Instagram com a
história de um palestino assassinado em ataque aéreo enquanto buscava os
convites de seu casamento. Quase diariamente, nós, jornalistas, recebemos fotos
das agências de notícias em que pais e mães da Palestina se desesperam e se
debruçam sobre os corpos dos filhos envoltos em mortalha. Assim como Vilmar,
que morreu sobre uma cadeira de rodas na UPA de Recanto das Emas,
retiraram-lhes o direito de viver.
Mas não é preciso ir tão longe para ver homens anulados pela
sociedade. Muitos de nós estamos presos ao individualismo, ao egoísmo, à busca
do enriquecimento e da prosperidade. Nós nos preocupamos tanto conosco e não
olhamos para o próximo, para o lado. Quantos filhos abandonam seus pais em
asilos e os apagam da própria história? Tantas vezes, quando o fazem, levam
meses ou anos sem uma visita. O idoso alimenta aquela esperança, irreal, a cada
fim de semana. Do outro lado, muitos encontram silêncio, desprezo e
esquecimento em vida. Também quantos pais ignoram a existência de seus filhos e
não lhes oferecem o mínimo suporte afetivo e financeiro? Destroem a saúde
psicológica de quem deveriam amar.
Perto de nós existem outros como Vilmar. Pessoas com nome e
CPF, mas lançadas à margem da sociedade. Estão nos semáforos, nas portas dos
supermercados, sob as pontes e os viadutos, lançados na sarjeta. Dependem
unicamente da empatia alheia, que quase sempre inexiste. Quando o Estado lhes
dá atenção, normalmente é para sepultá-las.

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