Alfredo Bertini deixa de ser organizador, articulador,
arquiteto artístico e engenheiro financeiro para tornar-se o vento que
conduzirá cada futura edição do Cine/PE
Alfredo Bertini faleceu durante cirurgia de transplante de
órgão no terceiro dia da 30ª edição do Festival de Cinema de Pernambuco, que
ele idealizou e realizou anualmente desde 1996. Se esse fosse o roteiro de um
filme, o diretor seria acusado de falsificar a realidade para servir ao drama;
a crítica diria que a vida do personagem — economista, cinéfilo, escritor,
filósofo, pai de família, agregador de amigos e realizador do festival — seria
suficiente para dispensar esse recurso teatral; os assistentes da 30ª edição do
Cine/PE sentiram a emoção de viverem a realidade mais surpreendente do que a
ficção a que assistiam na tela. Na sua 30ª edição, Bertini foi mais do que o
organizador do Cine/PE, foi seu principal personagem.
Sua vida — desde a infância na Praia do
Pina, em Recife, sua formação profissional, atuação na realização do Porto de
Suape e no Ministério da Cultura, a produção de artigos, o pioneirismo no
estudo da economia do audiovisual, a extraordinária capacidade de colecionar
amigos — pode ser captada por um bom diretor, mas dificilmente alguém
conseguiria reproduzir em tela a emoção coletiva vivida dentro do centenário
Teatro Cinema do Parque naquelas noites da 30ª edição. Nos primeiros dias,
todos estávamos voltados para o hospital esperando sua resistência e
recuperação, sentindo a presença de Alfredo. Faleceu no instante em que se
iniciava a exibição de um dos filmes de longa-metragem. Mas a notícia veio
depois que a sessão terminou e as luzes se acenderam. Não houve anúncio
bombástico nem choros públicos, apenas a dor de quem se sentia em dívida com o
amigo que realizou o evento que nos reuniu no momento de sua partida.
Durante meses na lista de espera, ele aguardou por um fígado
compatível. Nesse período, dialogou com amigos sobre a vida no corredor da vida
que é a espera por um órgão. Falou sobre a realidade de nosso tempo, em que a
ciência criou corredores para a vida sem abolir os corredores para a morte,
seja pela guerra, pela penalidade jurídica, pela violência nas ruas ou pela
pobreza. Manifestou com tristeza que o número de órgãos disponíveis aumentou em
consequência do crescimento de morte de jovens em acidentes de trânsito,
especialmente com motocicletas. Não deixou de refletir e compartilhar a
ambiguidade existencial de sua sobrevivência depender da morte de outra pessoa.
No conto Os dois corações, um jovem se conforma da falta de doador lembrando
que tinha frágil coração biológico, mas sólido coração moral que lhe dava o
privilégio de viver na era em que há técnicas para o transplante, mas ainda não
ética para a doação automática. Bertini necessitava de um novo fígado, mas
viveu até o último instante com aquele que recebeu no nascimento e usando
plenamente sua capacidade moral de lutar por um Brasil melhor e por valores
estéticos por um mundo mais belo, sobretudo pelo cinema.
Quem participa do mundo cinematográfico conhece a
importância e a dificuldade para realizar um festival, ainda mais mantê-lo por
30 edições consecutivas. A escolha dos filmes, a agenda de atores, diretores e
críticos, o transporte e o alojamento, sobretudo a engenharia financeira, são
tarefas que parecem insuperáveis. Mas, sem os festivais, os filmes não
têm a divulgação de que precisam para chegar ao grande público. Sem o Cine/PE,
dezenas de obras, longas e curtas-metragens, ficariam perdidas. Devemos a Bertini
o lançamento de dezenas de filmes brasileiros, inclusive do novo cinema
pernambucano, que hoje orgulha o Brasil.
Apesar do sentimento de dor, não havia a sensação de morte:
ele continuava sendo a parte mais importante e presente do festival e
continuará presente a cada ano, quando as futuras edições acontecerem. Ele era
o condutor, mas o festival sempre foi resultado de uma equipe liderada também
por Sandra Bertini, pelos filhos e por seus colaboradores. Foram eles que
conseguiram levar adiante a 30ª edição, na qual o próprio autor, ao morrer,
passou a integrar sua obra. Guardando o choro e sem reduzir o esforço, fizeram
integralmente aquela edição, com a homenagem à atriz Claudia Abreu, e
certamente darão continuidade ao festival.
Bertini deixa de ser organizador, articulador, arquiteto
artístico e engenheiro financeiro para tornar-se o vento que conduzirá cada
futura edição do Cine/PE, rebatizado como Festival Bertini do Cinema
Brasileiro. Estará sempre presente porque virou ele próprio um filme, sobretudo
se o cinema que abrigou o festival receber o nome de Cinema do Teatro do Parque
Alfredo Bertini.
*Cristovam Buarque — professor emérito da Universidade de
Brasília (UnB)

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