Os Estados Unidos minam a União Europeia e apostam em um
continente fragmentado e submisso
Dois líderes europeus de países aliados dos EUA acabam de
descobrir que, para Donald Trump, não há qualquer limite à ingerência em
assuntos soberanos de outros governos. Georgia Meloni, primeira-ministra da
Itália e representante de um movimento ultraconservador, foi obrigada a ir às
redes sociais para rebater uma provocação por parte do republicano. Segundo
ele, a italiana teria mendigado por uma foto ao seu lado e tentado se
aproveitar de sua imagem. Meloni respondeu com vigor e fez uma pergunta:
por qual motivo o líder dos EUA faz isso com seus próprios aliados? A pergunta
é a que todos se fazem na Europa.
Dias depois, Trump cruzaria outra fronteira
ao publicar, em suas redes sociais, uma mensagem de que Keir Starmer iria
renunciar ao cargo de premier do Reino Unido antes mesmo de o britânico fazer
o anúncio aos seus cidadãos, 24 horas depois.
Ingerência, humilhação e pressão têm marcado a relação entre
o Velho Continente e os Estados Unidos. Enquanto as capitais da Europa
tentam coordenar posições e buscar formas de lidar com essa nova realidade, uma
constatação finalmente domina os corredores do poder no continente: a Europa é
apenas mais um quintal de Trump.
A impressão de submissão não vem apenas de gestos públicos
ou de uma diplomacia de redes sociais. A Casa Branca sinalizou que seu objetivo
é o de promover uma ruptura em relação ao status quo com a Europa, enfraquecer
o projeto de integração e lidar individualmente com os governos
nacionais. Na visão de Trump, não há mais a ideia de um Ocidente Liberal
unido, uma construção que dominou o imaginário de europeus e norte-americanos
desde quando as democracias de ambos os lados do Atlântico se deram as mãos para
derrotar o nazismo.
Em todas as decisões, a Casa Branca passou a usar apenas uma
régua, o seu próprio interesse diante do que muitos em Washington consideram um
desafio existencial da hegemonia norte-americana no século XXI. O que era
uma suspeita ao longo dos primeiros meses de 2025 ganhou estrutura política em
dezembro. Num documento histórico, o governo Trump anunciou a Estratégia de
Segurança Nacional e, nele, há apenas uma certeza em relação ao Velho
Continente, o desejo de Washington de promover uma ruptura em uma região
“decadente”.
A chantagem em relação à anexação da Groenlândia, território
de um país europeu e aliado, a aplicação de tarifas contra economias da UE ou
os atritos com diferentes líderes revelaram aos chefes de governo e
negociadores do bloco que a lógica da Casa Branca mudou. Argumentos que os
uniam, como a defesa de democracias liberais, deixaram de servir de parâmetros
para a tomada de decisões conjuntas. A segurança não está relacionada sequer
com um perfil específico de nações.
As críticas à Otan ilustram a vontade de se desvincular de
um sistema de segurança coletiva. Durante a reunião do G7 na francesa Evian,
ficou claro que a guerra na Ucrânia era ainda o catalisador dessas tensões. Do
lado de Paris e Berlim, a escolha por bajular o norte-americano na esperança de
que ele volte a assumir a defesa de Kiev resultou em um dos capítulos mais
humilhantes da história recente do continente. Ao recusar-se a apoiar de forma
inquestionável a Ucrânia, Trump força a Europa a assumir os custos de sua
defesa. E qualquer ocasião é usada para reforçar essa mensagem. Em 9 de abril,
após uma reunião com o secretário-geral da organização, Mark Rutte, Trump
publicou no Truth Social uma crítica à aliança militar, alertando que ela não
esteve presente quando ele necessitou, no caso do Irã, e que não iria perdoar
esse fato.
Trump ainda declarou uma guerra civilizatória na Europa.
Para construir esse afastamento, a imagem desenhada ao longo de década de uma
relação entre aliados foi substituída por uma mensagem de uma Europa frágil e
decadente. No lugar de uma união cada vez mais forte, a Casa Branca aposta na
volta do Estado-nação como centro do debate e o fim do consenso europeu. Em sua
receita para o Velho Continente, sugere o nacionalismo como uma espécie de
resistência.
A contrarrevolução promovida pelos EUA não é apenas uma
influência difusa na Europa. Trata-se de um movimento organizado para promover
uma mudança de regime no continente por meio de cúmplices como o AfD na
Alemanha, o Chega em Portugal ou o Vox na Espanha. Trump, portanto, alimenta
não apenas um ataque do exterior ao bloco, mas a partir de suas próprias
entranhas.
O objetivo dessa ofensiva é uma Europa fragmentada, que não
se reconhece mais em uma união construída ao longo de décadas. Mas em
Estados-nações individuais, mais fácil de dominar e nos quais ecoam termos
como Hinterhof, podwórkiem, baghave, dvorom e l’arrière-cour. Ou
simplesmente, quintal.
Publicado na edição n° 1419 de CartaCapital, em 30
de junho de 2026.

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