Ninguém sabe por que atacou o Irã e ninguém sabe por que
ele suspendeu os bombardeios
Ninguém sabe por que Donald Trump atacou
o Irã, e
ninguém sabe por que ele suspendeu os bombardeios. Nem ele sabe que resultados
conseguirá depois de uma guerra que já custou aos americanos perto de US$ 30
bilhões. Esse é o preço das guerras teatrais.
Trump foi atrás do Irã depois de um êxito surpreendente
contra a Venezuela. Sequestrou o ditador, absorveu a ditadura e embolsou o
petróleo. Começou a guerra com o Irã matando o líder supremo Ali Khamenei,
tentou decapitar o regime dos aiatolás e atolou.
Nos primeiros dias da guerra, Trump soltou
uma exigência e uma ameaça. Primeiro disse que os ataques prosseguiriam até que
se conseguisse a “rendição incondicional” do Irã, depois ameaçou mandar milhões
de iranianos “de volta à Idade da Pedra”.
Nenhuma das duas expressões era original. Uma foi posta na
mesa dos Aliados, em 1943, pelo presidente americano Franklin Roosevelt. Dois
anos depois, quando os alemães assinaram a rendição, o general americano Dwight
Eisenhower nem sequer estendeu a mão ao alemão.
A ameaça foi uma bravata do general Curtis LeMay contra os
vietnamitas. Falhou, e os americanos voltaram para casa depois de ter perdido
58 mil militares. (Desde então, os presidentes americanos evitam usar a
infantaria em suas guerras.)
As duas falas mostram que Trump faz guerras como quem joga
fliperama. Se der, deu. Se não, proclama-se vitória e sai-se de campo. Ao fim,
a oposição iraniana que se levantaria ficou menor.
Até novembro, quando uma eleição poderá tirar dos
republicanos o controle da Câmara dos Representantes, Trump sairá atrás de uma
vitória, e Cuba é a primeira candidata. A Venezuela mostrou-se uma barbada
porque a ditadura era corrupta, impopular e mantida à custa de uma eleição
roubada.
O Irã está encravado na confusão do Oriente Médio, e Trump
tem um aliado em Israel, com sua agenda própria. No Caribe, passado mais de
meio século da revolução castrista, com sua aura romântica, a pista parece
livre.
Em Cuba, a crise energética levou a ruína para o cotidiano
dos habitantes, gostem ou não do regime. O estabelecimento de uma nova ordem em
Cuba dá a Trump uma vitória cuja extensão ainda é imprevisível. Dá ao
secretário de Estado, Marco Rubio (filho de cubanos), um êxito que o coloca
mais perto da Casa Branca em 2028 e pode dar alguma sobrevida ao complexo
comercial e burocrático das Forças Armadas, como sucedeu na Venezuela.
Cuba tem um especial atrativo para Trump e sua turma: uma
mudança de regime, mesmo parcial, trará consigo um boom imobiliário de grandes
proporções. Grosseiramente, pode-se estimar que, com a venda de um estúdio em
Miami, será possível comprar um apartamento de três quartos e sala novo na
ilha.
Nenhum iraniano ganharia com a guerra de Trump. No caso de
Cuba, o negócio é outro, e o primeiro a ganhar será ele mesmo, que pensou em
fazer uma Riviera na Faixa de Gaza.
O último sinal de que os Estados Unidos preparam
alguma encrenca com Cuba veio do secretário da Guerra, Pete Hegseth, que
ameaçou com um confronto se Havana comprar armas capazes de atingir o
território americano ou a base militar de Guantánamo.
Ora, Guantánamo fica em Cuba.

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