Ao decretar novas prisões, juiz relatou 'sangria das verbas públicas' na gestão bolsonarista
A frase é do juiz Marcello Rubioli, da 1ª Vara Criminal
Especializada em Organização Criminosa: “O estado do Rio de Janeiro chegou ao
fundo do poço e descobriu que ainda havia uma caixa de gordura”.
O magistrado decretou a prisão preventiva de seis envolvidos
em fraudes no Instituto Rio Metrópole. Criado para elaborar projetos de
transporte, saneamento e habitação, o órgão foi transformado em mais um
sorvedouro de dinheiro público.
A operação de quinta-feira desmantelou um esquema que
desviou ao menos R$ 86 milhões. Entre os presos, está o presidente da
autarquia, nomeado pelo ex-governador Cláudio Castro. Também foram em cana o
pai e a cunhada do deputado estadual Alexandre Knoploch. Ele se apresenta nas
redes como “casado, pai, evangélico”, “conservador de direita” e “pela
família”.
Na decisão, o juiz Rubioli descreveu um
quadro de assalto aos cofres fluminenses: “O que se vê é um cenário de total
aparelhamento espúrio do estado, sangria das verbas públicas, apadrinhamentos e
toda sorte de ações que levaram o mesmo à bancarrota”.
A devassa no Instituto Rio Metrópole teve origem em autorias
instauradas pelo governador em exercício, Ricardo Couto. Em pouco mais de cem
dias, o desembargador demitiu 4.000 funcionários fantasmas. Agora pretende
fechar uma dezena de secretarias que serviam como cabides de emprego para
apaniguados de Castro e de seus aliados na Assembleia Legislativa.
Em outra frente de investigação, a Polícia Federal tem
desvelado ligações de políticos do Rio com milícias e facções criminosas. O
primeiro a ser preso foi Rodrigo Bacellar, ex-presidente da Alerj que seria
candidato a governador com apoio de Castro. Nesta terça, foi a vez de Márcio
Canella, flagrado com um fuzil no carro. Próximo de milicianos da Baixada, o
ex-deputado era pré-candidato ao Senado na chapa de Flávio Bolsonaro. A mãe do
presidenciável, Rogéria Bolsonaro, seria sua primeira suplente.
O Rio de Janeiro vive atolado em crises e escândalos há mais
de uma década. Em 2018, os servidores ficaram sem receber salários, a segurança
virou alvo de intervenção federal e o governador Luiz Fernando Pezão saiu do
Palácio Laranjeiras de camburão. (Condenado a 98 anos de prisão, ele teria as
sentenças anuladas em segunda instância). Parecia o fundo do poço, mas o estado
ainda mergulharia mais fundo.
Eleito com discurso moralizador, Wilson Witzel inaugurou um
novo ciclo que uniu extremismo político, descalabro administrativo e
roubalheira desenfreada. Destituído pela Alerj, o ex-juiz foi substituído por
Castro, cuja gestão agora tem as vísceras expostas.
A autópsia da gestão bolsonarista revelou uma máquina infestada de “antros de corrupção”, disse na quinta o procurador-geral de Justiça, Antônio José Campos Moreira. “Inúmeras estruturas do estado, órgãos que deveriam prestar serviços ao cidadão, foram cooptadas por delinquentes e marginais”, resumiu.
Na mira da polícia, a turma não se dá por vencida. Cobra a saída do governador em exercício, que continua a caçar fantasmas, e tenta reorganizar o palanque para as eleições de outubro.

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