Associados ao trumpismo e com grande capacidade de
mobilização, os discípulos de Bolsonaro dissimulam o autoritarismo de outrora
com singulares artifícios
A história humana não ocorre através de fases estanques,
como às vezes a descrição didática em períodos transparece ao inadvertido. Ao
contrário, ela se revela por meio de processos complexos, nos quais elementos
de conformação política e social do período anterior podem ser – e comumente
são – identificados nos subsequentes. Não há, inclusive, garantias contra
retrocessos e involuções civilizatórias. Só há ordem na mera descrição
histórica, bem como nas tentativas de sua compreensão pelos manuais da didática
clássica. Na história vivida prevalece o caos.
É nesse cenário que podemos afirmar
enfaticamente: o bolsonarismo está aparelhado para, de forma sedenta, reassumir
o poder pelas vias democráticas, mas com o deliberado propósito de miná-las no
curso do processo eleitoral, abrindo caminho para uma governabilidade de
exceção.
As formas de autoritarismo do século XXI possuem, como
constantemente reafirmamos, determinadas especificidades quando comparadas às
manifestações do século anterior. Ainda que identifiquemos elementos de
continuidade, as expressões dos últimos anos, por estarem diluídas na rotina
democrática, tornam o tema ainda mais desafiador.
O autoritarismo deixou de ser a manifestação de um Estado de
exceção em sua acepção clássica, para dar lugar às medidas de exceção
associadas à produção fractal e líquida. Ou seja, deparamo-nos com um Estado de
exceção que se manifesta por medidas de exceção, não por governos de exceção.
Utilizamos a denominação autoritarismo líquido para falar
dessa nova natureza das medidas de exceção no interior das rotinas
democráticas, por se tratar de medidas fragmentadas, cirúrgicas, acionadas sob
uma aparência de legalidade, o que torna sua identificação mais difícil.
A análise do autoritarismo líquido – assim intitulado por
não se assumir como tal, não ser uniforme e minar, em intensidades variadas, os
âmbitos da vida democrática – impõe aprofundado estudo dos fatores de
desestabilização e de subversão dos direitos fundamentais e da democracia.
O enfrentamento à gradual fragilização dos espaços e dos
sentidos da democracia e da relação de pertencimento à sociedade requer que
desnudemos os artifícios das novas formas de autoritarismo, inclusive de matriz
neobolsonarista, enfraquecedoras do nosso pacto civilizatório.
O olhar para o futuro pressupõe, antes de mais nada, o
reconhecimento dos nossos recentes fracassos, a insuficiência dos nossos
manuais clássicos e a falibilidade das nossas instituições. Entretanto, sem que
antes tenhamos enfrentado e desnudado o bolsonarismo, o mesmo vem se
apresentando, praticamente às vésperas de um novo processo eleitoral, de forma
cada vez mais sofisticada e poderosa.
Maior sofisticação, quando comparado ao que podemos chamar
de bolsonarismo 1.0, é identificada, por exemplo, nos seus discípulos,
inclusive nos governos estaduais. Com maior verniz, eles dissimulam o
autoritarismo de outrora com singulares artifícios. Ademais, maior poderio
identifica-se, ainda, na capacidade de mobilização e associação ao trumpismo.
É fundamental compreender as causas e as consequências do
deslocamento do poder soberano do povo para aquele que toma para si a
possibilidade de, inclusive mobilizando afetos públicos e em solapamento da
verdade e da coesão social, decidir sobre a exceção. Trata-se do antídoto
contra a gradual fragilização dos direitos fundamentais, dos espaços e dos
sentidos da democracia e, por fim, da relação de pertencimento à sociedade.
Repita-se: o enfrentamento à gradual fragilização dos
espaços e dos sentidos da democracia e da relação de pertencimento à sociedade
requer que desnudemos os artifícios de um autoritarismo de diluição do pacto
civilizatório e da coesão social. Medo, ódio, ressentimento, decepção, raiva e
angústia são, como nunca, capturados pelo soberano por meio de narrativas
pretensamente racionais e legitimadoras da imposição de mecanismos de
segregação e violência, em prejuízo da pluralidade e da tolerância.
Ainda que desejássemos, não temos fórmulas ou receitas para
o enfrentamento do desafio ora apresentado. Uma das características do novo
autoritarismo está exatamente em retroalimentar-se e de redesenhar-se
diuturnamente, inclusive como estratégia de infiltração e de esvaziamento dos
instrumentos democrático-sociais a ele contrários.
A reconstrução, bem como o olhar para o futuro, requer
incondicional compromisso com a democracia e com os direitos fundamentais. O
grande problema é que, sem que antes tenhamos cicatrizado as dores do
bolsonarismo paterno, seus filhos e adeptos estão, como nunca, armados para a
guerra. Estejamos em vigília. •
Publicado na edição n° 1420 de CartaCapital, em 08 de
julho de 2026.

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