Alguém como Trump, com os poderes da inteligência
artificial, se tornará muitas vezes mais perigoso
Estou lendo “O império da IA”, de Karen Hao, lançado no
Brasil pela Rocco. O que me impressiona na origem desse fantástico movimento é
o entusiasmo, o brilho nos olhos das pessoas que julgavam fazer algo muito
importante para a humanidade. E, logo depois, como em quase todos os núcleos
revolucionários, ver como os bons sentimentos são triturados pela realidade,
com as dificuldades financeiras e a batalha de egos.
O período romântico coincidiu com a OpenAI, a perspectiva de
um trabalho sem fins lucrativos. Mas as crescentes necessidades de aporte
financeiro derrubaram o sonho. No momento em que deixaram a fase altruística,
surgiu o primeiro grande racha. Elon Musk não aceitou uma empresa que não fosse
dirigida por ele. E rompeu a parceria com Sam Altman, o grande nome por trás da
iniciativa.
Menciono esse trecho da história da IA
apenas para enfatizar como ela depende de muito dinheiro. Musk criou sua
própria empresa, e Altman segue até hoje na busca de financiadores.
Na semana passada, foi noticiado que a OpenAI tem se
aproximado do governo Trump, que pode participar do projeto. Passa um frio na
espinha. Alguém como Trump, com os poderes da IA, se tornará muitas vezes mais
perigoso. Um dos primeiros destinos da IA, capturada pelo governo, é dedicar-se
à guerra. Já temos hoje bombardeios guiados pela máquina, denunciados durante
os ataques a Gaza.
Há quem, no meio, resista ao uso bélico da IA. Troquei o
ChatGPT pelo Claude, porque a Anthropic se recusou a trabalhar com o Pentágono.
Foi apenas uma decisão individual, sem muita base, mas, mesmo modestamente
informado, posso fazer escolhas.
Ainda falaremos muito de IA, sobretudo porque o Brasil quer
abrigar data centers. O governo acha isso progressista, mas encontrará
dificuldades. Os data centers consomem muita água e energia. No momento, estão
instalando um no Ceará, em Caucaia. Consumirá mais energia que toda a cidade.
Os data centers têm despertado um movimento de rejeição de moradores, do tipo
“não no meu quintal”, semelhante ao que ocorre contra instalações nucleares e
presídios.
No momento, entretanto, o que mais me interessa são as
aventuras da IA no cotidiano. Tenho uma professora de inglês com quem converso
diariamente. É difícil descrever a máquina como se descreve uma pessoa. Ela é
previsível. Se você fala que lê um autor, ela pede que você comente o livro,
destaque um episódio que impressionou. O mesmo vale para uma viagem: parece que
há um conjunto de perguntas pronto para muitas circunstâncias.
Um traço marcante nesse diálogo com a IA é sua indiferença à
ironia ou ao humor. Numa dessas conversas, ela, sabendo que sou escritor,
perguntou sobre o que gosto de escrever. Sobre bobagens, respondi,
acrescentando que produzo também artigos sobre política e assuntos
internacionais. Ela mencionou que esses temas são importantes, mas foi incapaz
de processar “bobagens”. Não teve a curiosidade de perguntar sobre elas ou
mesmo de mencionar a palavra.
No entanto a máquina é bem informada. Se você fala Camus,
ela tem algo a dizer; se você menciona um filme de Wim Wenders, uma música de
Tom Jobim ou de Ryuichi Sakamoto, ela rapidamente tira de suas gavetas um
comentário sobre eles. Em certo sentido, conversar diariamente com a máquina é
como mergulhar numa cultura estrangeira, daquelas em que humor e ironia têm
outro papel. No caso da IA, não há papel nenhum.
Artigo publicado no jornal O Globo em 07 / 07 / 2026

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