A eliminação da jornada 6x1 tem de valer também para os
milhões de trabalhadores e trabalhadoras rurais que fazem do Brasil um dos
maiores celeiros do mundo
O debate sobre o fim da escala 6x1 ganhou força ao expor a
compressão do tempo de vida imposta por jornadas extensas e descanso
insuficiente. Impulsionada pelo Movimento Vida Além do Trabalho (VAT), essa
mobilização partiu das redes sociais para as ruas, reativando um debate
clássico sobre a apropriação do tempo e a dignidade do trabalhador frente às
demandas do capital. Mobilizou principalmente as cidades, mas agora precisa
alcançar com a mesma centralidade o trabalho no campo.
A produção rural brasileira depende de uma força de trabalho
numerosa, mal protegida e, com frequência, invisibilizada. São cerca de 3,6
milhões de trabalhadores rurais assalariados, dos quais apenas 40% têm carteira
assinada. A informalidade, nesse caso, não é condição lateral: ela estrutura a
relação entre empregadores e trabalhadores no meio rural, dificultando o
controle da jornada, o acesso à previdência, a proteção em acidentes e o
direito efetivo ao descanso.
O estudo "Entre o tempo de trabalho e
o tempo de vida", da Oxfam Brasil, mostra que 45% desses trabalhadores
cumprem mais de 40 horas semanais — e 23% ultrapassam as 44 horas previstas na
Constituição. A escala 6x1 é uma das formas mais frequentes de organização do
trabalho rural, sobretudo nos períodos de plantio e colheita. Ainda assim, a
jornada registrada não revela todo o tempo tomado pelo trabalho: desde a
reforma trabalhista de 2017, as horas de transporte deixaram de ser
reconhecidas como tempo à disposição do empregador, impactando especialmente o
trabalhador rural que, em muitas regiões, gasta até quatro horas diárias em
deslocamento.
Essa exclusão do tempo de trajeto é mais um desdobramento de
uma invisibilidade jurídica histórica enraizada na escravidão e reforçada desde
a criação da CLT em 1943, que deliberadamente excluiu o campo de sua proteção.
O resultado é um ciclo de desamparo que mantém o trabalhador rural fora do
radar da fiscalização e agravado pela insuficiência do aparato público: são
apenas 2.700 auditores fiscais do trabalho para mais de 5.000 municípios. Em
cadeias marcadas por terceirização e intermediação por "gatos", trabalhadores
ficam fora do alcance das normas mais elementares de proteção.
O cenário é ainda mais crítico quando se observam seus
recortes. De acordo com a Oxfam Brasil, 69,6% dos trabalhadores rurais são
pessoas negras e 58,3% deles estão na informalidade, o que concentra sobre essa
força de trabalho a ausência de registro, a instabilidade dos vínculos e a
dificuldade de acesso à previdência. As desigualdades de gênero ampliam a
sobrecarga: para muitas mulheres rurais, outra jornada começa quando o
expediente termina. Dados do estudo mostram que mulheres dedicam em média 21,3
horas semanais a afazeres domésticos — ante 11,7 horas dos homens —, e, entre
mulheres negras, o peso é ainda maior.
Para que a mudança seja efetiva, é preciso romper com a
persistência cultural da exploração escravocrata, que trata o trabalho no campo
como objeto de total disponibilidade ao capital. Essa visão é alimentada por
estruturas de contratação opacas, como as "parcerias falsas", que
ocultam vínculos empregatícios legítimos e privam os trabalhadores de sua
identidade como sujeitos de direitos. Por isso, também no campo a redução da
jornada deve ser tratada como política de saúde, proteção social e igualdade: o
fim da escala 6x1 precisa vir acompanhado da garantia de pelo menos dois dias
de descanso semanais, preferencialmente consecutivos, sem redução salarial e
sem que a mudança seja neutralizada por horas extras ou bancos de horas
abusivos.
O avanço legislativo recente abriu uma oportunidade
concreta. Em maio, a Câmara dos Deputados aprovou a PEC 221/2019, que
estabelece jornada máxima de 40 horas semanais, em cinco dias de trabalho e
dois de descanso, sem corte de salários. O texto seguiu ao Senado — e seu
alcance dependerá da preservação de pontos centrais na tramitação. Propostas
que esticam a transição por 10 anos, criam exceções amplas ou compensam custos
empresariais com perda de direitos esvaziam o sentido da medida.
A inclusão do campo nessa agenda interessa ao conjunto da
sociedade. A informalidade reduz contribuições à previdência, fragiliza a
arrecadação pública e transfere os custos do adoecimento e dos acidentes para
os serviços públicos. A precarização no campo enfraquece o Estado, pressiona o
sistema de saúde e aprofunda desigualdades territoriais. Jornadas exaustivas
elevam riscos, ampliam afastamentos e favorecem a rotatividade — enquanto
experiências em segmentos rurais que adotaram dois dias de descanso indicam
melhora de produtividade e maior permanência dos trabalhadores.
O Congresso tem diante de si a oportunidade de aprovar uma
mudança ampla, sem corte salarial, sem perda de direitos e sem deixar para
depois a proteção de quem sustenta parte essencial da economia brasileira.
Enquanto a barreira de invisibilidade social persistir, a sociedade continuará
consumindo os frutos desse esforço sem reconhecer a dignidade de quem o produz,
mantendo o abismo entre o sucesso do agronegócio e a precariedade da vida de
seus trabalhadores.
*Viviana Santiago — diretora-executiva
da Oxfam Brasil; Gabriel Bezerra — presidente da Confederação
Nacional dos Trabalhadores Assalariados e Assalariadas Rurais (Contar)
; Lucas Sidrach — coordenador nacional do Movimento Vida Além do
Trabalho (VAT)

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