quarta-feira, 22 de julho de 2026

DESCULPA ANTECIPADA PARA A DERROTA

Fabiano Lana, O Estado de S.Paulo

Insinuação de Flávio Bolsonaro sobre fraude em urnas é desculpa antecipada para a derrota

Repetição do discurso de fraude parece refletir que não houve reflexão ou mudança de rota mesmo com as consequências dramáticas com o 8 de Janeiro

Cada força política parece ter seus dogmas. O petismo segue a acreditar em uma economia tocada pela força do Estado e a desconfiar do capitalismo liberal, por exemplo. De alguma maneira, nunca superou a queda do muro de Berlim, em 1989. O bolsonarismo tem outros axiomas. Um é o de que seria parte de uma guerra civilizacional planetária pelos valores da família e da pátria. Outro é que só perdeu as eleições de 2022 por causa de fraude nas urnas eletrônicas.

A fala de Flávio Bolsonaro, esta semana, quando se insinuou contra a credibilidade das urnas, em encontro com embaixadores, mostra que, em seu íntimo e no de seu grupo, não houve recuo de pensamento.

Essa convicção é tão forte no modo de ser da seita política que parece não ter havido reflexão ou mudança de rota mesmo com as consequências dramáticas. Entre elas, a inelegibilidade e mesmo a prisão por tentativa de golpe de Estado do líder Jair Bolsonaro.

Na fábula da tribo, o ex-presidente só tentou intervir no processo eleitoral porque Lula só teria sido eleito devido a uma burla nos sistemas eletrônicos. Fala-se de alteração do código fonte, de hackers, etc. etc. Não precisam de provas para acreditarem nisso. Centenas que tinham esse sugestionamento depredaram os prédios da Praça dos Três Poderes no fatídico 8 de janeiro de 2023.

Mais do que uma fé cega numa fraude, a prosa serve ao oportunismo político de ocasião. No seguinte sentido: em caso de possível derrota nas eleições presidenciais deste ano, já haverá um consolo no coração e algo para alimentar a chama do bolsonarismo em mais uma travessia do deserto da oposição. “Só perdemos porque mais uma vez fomos vítimas de fraude”, vão dizer, discretamente, nas conversas íntimas ou nos grupos de aplicativos.

O posicionamento de Flávio serve a esses propósitos internos, por mais que venham as consequências da justiça eleitoral – que aliás, seria apenas mais um braço do sistema que age para sufocá-los, segundo as teses que defendem.

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