É mal de amor, é dor que dói demais. Dói como um barco,
que aos poucos descreve um arco e evita atracar no cais
Quem melhor que uma cardiologista para falar de saudade —
essa palavra branca que, peixe, se evade e pode até desencadear a síndrome do
coração partido? Foi o que fez Stephanie Rizk, em sua coluna no GLOBO, em 6 de
julho. Ali ela diz que a saudade não é invenção sentimental, mas “uma
tecnologia antiga de sobrevivência”. Deve ser por isso que a saudade no meu
peito ainda mora. Peço: leva eu, sodade, eu também quero ir. E essa saudade
enjoada não vai embora.
Saudade é palavra triste quando se perde um grande amor
(saudade de você debaixo do meu cobertor). É arrumar o quarto do filho que já
morreu (não sei quem tem mais saudade: se a saudade, se sou eu).
Essa presença da ausência de alguém, de algum lugar, de
algo, enfim, seria uma forma ancestral de nos empurrar de volta aos vínculos
(diz que é verdade, que ainda você pensa muito em mim). Um processo que “nos
devolve ao presente com mais coragem” e “dá contorno ao dia”. Aí a gente tem
saudade da Amélia — aquilo, sim, é que era mulher. Saudade de Itapuã, da Maria,
da Bahia, dos tempos da Panair.
Rizk defende que não é o caso de tentar
acabar com a saudade (não a afogue nos copos de um bar), mas de saber o que
fazer com ela. Talvez a própria saudade faça um samba em seu lugar. Diz que
“Não se pode dizer que saudade mata”. Será? A saudade é dor pungente. Se eu não
mato a saudade — é, deixa estar —, a saudade mata a gente, morena. É mal de
amor, é dor que dói demais. Dói como um barco, que aos poucos descreve um arco
e evita atracar no cais.
“A saudade tem uma delicadeza que a diferencia da solidão.”
Sim: solidão é o carrasco sombrio, e a saudade a vergasta. Ambas vêm do
latim solitas (isolamento, desamparo), que deu em soledade e
solitário. Daí que ter saudade até que é bom, melhor que caminhar vazio. E quem
foge da saudade, preso por um fio, se afoga noutras águas, mas no mesmo rio.
Fernando Pessoa supôs que só portugueses consigam senti-la
bem, porque têm uma palavra para dizer que a têm. Não é verdade. Alemães
têm Sehnsucht; galegos, morriña; espanhóis, añoranza.
Romenos a sentem ainda melhor: sentem dor. Mineiros e
cabo-verdianos a chamam sodade: dos bailes no clube da esquina, de
ter visto muita coisa — menos a felicidade.
Saudade é o som do tempo que ressoa, a luz que sobra da
pessoa. É o pior tormento, é pior que o esquecimento, pior que se entrevar.
Demorada, “deixa de ser apenas uma experiência emocional e passa a conversar
com o sistema imunológico, hormonal e cardiovascular”. Diz Rizk que ela “pode
ferir, mas também pode costurar”. Sei não. Para ter felicidade, é preciso que a
saudade vá bater noutro lugar.
Contra a dor da saudade — receitam os poetas —, o remédio é
cantar.
(Obrigado, Alventino Cavalcanti, Antônio Almeida, Ary
Barroso, Ataulfo Alves, Braguinha, Carlinhos Lyra, Cecília Meireles, Chico
Buarque, Chico César, Cuca Roseta, Djavan, Dorival Caymmi, Fernando Brant,
Gilberto Gil, Hermano Silva, Hermínio Giménez, Humberto Teixeira, José Augusto,
José Fortuna, Joubert de Carvalho, Laércio Alves, Lupicínio Rodrigues, Luiz
Gonzaga, Mário Lago, Max Nunes, Milton Nascimento, Moska, Ney Azambuja, Pablo
Neruda, Paulo César Pinheiro, Paulo Gesta, Paulo Sérgio Valle, Peninha, Pinheirinho
Júnior, Ronaldo Bôscoli, Sueli Costa, Tavito, Tito Madi, Tito Neto, Vanessa
Rangel e Vinícius de Moraes.)

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