sábado, 11 de julho de 2026

E POR FALAR EM SAUDADE

Eduardo Affonso, O Globo

É mal de amor, é dor que dói demais. Dói como um barco, que aos poucos descreve um arco e evita atracar no cais

Quem melhor que uma cardiologista para falar de saudade — essa palavra branca que, peixe, se evade e pode até desencadear a síndrome do coração partido? Foi o que fez Stephanie Rizk, em sua coluna no GLOBO, em 6 de julho. Ali ela diz que a saudade não é invenção sentimental, mas “uma tecnologia antiga de sobrevivência”. Deve ser por isso que a saudade no meu peito ainda mora. Peço: leva eu, sodade, eu também quero ir. E essa saudade enjoada não vai embora.

Saudade é palavra triste quando se perde um grande amor (saudade de você debaixo do meu cobertor). É arrumar o quarto do filho que já morreu (não sei quem tem mais saudade: se a saudade, se sou eu).

Essa presença da ausência de alguém, de algum lugar, de algo, enfim, seria uma forma ancestral de nos empurrar de volta aos vínculos (diz que é verdade, que ainda você pensa muito em mim). Um processo que “nos devolve ao presente com mais coragem” e “dá contorno ao dia”. Aí a gente tem saudade da Amélia — aquilo, sim, é que era mulher. Saudade de Itapuã, da Maria, da Bahia, dos tempos da Panair.

Rizk defende que não é o caso de tentar acabar com a saudade (não a afogue nos copos de um bar), mas de saber o que fazer com ela. Talvez a própria saudade faça um samba em seu lugar. Diz que “Não se pode dizer que saudade mata”. Será? A saudade é dor pungente. Se eu não mato a saudade — é, deixa estar —, a saudade mata a gente, morena. É mal de amor, é dor que dói demais. Dói como um barco, que aos poucos descreve um arco e evita atracar no cais.

“A saudade tem uma delicadeza que a diferencia da solidão.” Sim: solidão é o carrasco sombrio, e a saudade a vergasta. Ambas vêm do latim solitas (isolamento, desamparo), que deu em soledade e solitário. Daí que ter saudade até que é bom, melhor que caminhar vazio. E quem foge da saudade, preso por um fio, se afoga noutras águas, mas no mesmo rio.

Fernando Pessoa supôs que só portugueses consigam senti-la bem, porque têm uma palavra para dizer que a têm. Não é verdade. Alemães têm Sehnsucht; galegos, morriña; espanhóis, añoranza. Romenos a sentem ainda melhor: sentem dor. Mineiros e cabo-verdianos a chamam sodade: dos bailes no clube da esquina, de ter visto muita coisa — menos a felicidade.

Saudade é o som do tempo que ressoa, a luz que sobra da pessoa. É o pior tormento, é pior que o esquecimento, pior que se entrevar. Demorada, “deixa de ser apenas uma experiência emocional e passa a conversar com o sistema imunológico, hormonal e cardiovascular”. Diz Rizk que ela “pode ferir, mas também pode costurar”. Sei não. Para ter felicidade, é preciso que a saudade vá bater noutro lugar.

Contra a dor da saudade — receitam os poetas —, o remédio é cantar.

(Obrigado, Alventino Cavalcanti, Antônio Almeida, Ary Barroso, Ataulfo Alves, Braguinha, Carlinhos Lyra, Cecília Meireles, Chico Buarque, Chico César, Cuca Roseta, Djavan, Dorival Caymmi, Fernando Brant, Gilberto Gil, Hermano Silva, Hermínio Giménez, Humberto Teixeira, José Augusto, José Fortuna, Joubert de Carvalho, Laércio Alves, Lupicínio Rodrigues, Luiz Gonzaga, Mário Lago, Max Nunes, Milton Nascimento, Moska, Ney Azambuja, Pablo Neruda, Paulo César Pinheiro, Paulo Gesta, Paulo Sérgio Valle, Peninha, Pinheirinho Júnior, Ronaldo Bôscoli, Sueli Costa, Tavito, Tito Madi, Tito Neto, Vanessa Rangel e Vinícius de Moraes.)

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