Na chance que teve para defender os exportadores
brasileiros, o senador privilegiou seus interesses pessoais em Washington e
provou ser indigno da confiança do setor produtivo nacional
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à
Presidência, transformou em comício a audiência promovida pelo Escritório do
Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês) para
ouvir argumentos técnicos contra a adoção de tarifas americanas a produtos
brasileiros. Em vez de defender o Brasil com ponderações adequadas àquele
fórum, Flávio Bolsonaro envergonhou os brasileiros ao usar os poucos minutos
que tinha para atacar seu adversário na disputa eleitoral, o presidente Luiz
Inácio Lula da Silva, e para sugerir que os Estados Unidos esperem a eleição
para então negociar com um novo presidente – isto é, ele –, que será muito mais
alinhado ao presidente Donald Trump.
Com isso, Flávio perdeu a chance de provar que está
interessado em servir o Brasil – coisa que a família Bolsonaro, afinal, jamais
fez. A reação do setor produtivo não poderia ser outra: ao Estadão/Broadcast,
empresários presentes à audiência classificaram como “deslocada” e
“constrangedora” a atuação de Flávio Bolsonaro.
Enquanto autoridades e empresários adotaram o tom pragmático
que a situação exigia, Flávio discursou sobre regulação de big techs, corrupção
no Brasil e Pix – temas irrelevantes para o propósito daquele fórum. Para
comprovar que seu interesse não era defender os exportadores brasileiros, e sim
apenas fustigar Lula, Flávio apresentou-se ao lado de seu irmão Eduardo
Bolsonaro, deputado cassado que está homiziado nos Estados Unidos conspirando
dia e noite contra o Brasil e que havia defendido entusiasticamente a adoção de
tarifas americanas. Nada mais precisava ser dito.
Não foram necessários mais do que cinco minutos para que
Flávio Bolsonaro provasse, de uma vez por todas, que é indigno da confiança do
setor produtivo nacional. Houve premeditação. O senador tinha objetivos muito
bem definidos ao viajar aos Estados Unidos – e nenhum deles remotamente ligado
à defesa dos produtores industriais e agrícolas do País, muito menos dos
empregos de milhões de brasileiros.
O objetivo mais evidente da viagem de Flávio Bolsonaro era
provar para sua própria bolha de apoiadores e correligionários que ainda é a
melhor opção da oposição para desafiar Lula. O PL marcou para o próximo dia 25
a convenção que deve confirmar o nome que representará o partido na eleição de
outubro. Até lá, o senador precisa desesperadamente convencer sua própria base
de que, a despeito dos muitos rolos em que está metido e das inúmeras
trapalhadas de sua campanha, é o nome com mais chances de derrotar o incumbente.
A tarefa é árdua: Flávio Bolsonaro não goza da confiança de parte de seus
correligionários, e o desgaste chegou até o seio familiar, como se viu no vídeo
publicado por sua madrasta, Michelle Bolsonaro.
Somem-se a isso sua relação de “irmão” com Daniel Vorcaro, a
quem Flávio Bolsonaro pediu de viva voz cerca de R$ 134 milhões, e o passado
para lá de suspeito do senador, que envolve prática de “rachadinhas”, suspeita
de lavagem de dinheiro por meio de loja de chocolates, compra de imóveis em
dinheiro vivo e ligações com milicianos do Rio de Janeiro. É nesse contexto de
fragilidade política que o senador foi a Washington para tentar reconstruir, à
força de fotos e “cortes” para as mídias sociais, uma viabilidade eleitoral que
os fatos vêm corroendo dia após dia.
Enquanto os Bolsonaros prejudicam o Brasil para seus
propósitos pessoais, os diplomatas, líderes setoriais e técnicos brasileiros
continuam empenhados em tentar minimizar os danos das tarifas que provavelmente
serão adotadas contra o País. É isso o que fazem os que têm genuíno interesse
em ajudar o Brasil. E aqui cabe o registro de que, na embaraçosa foto de Flávio
e Eduardo Bolsonaro na sessão do USTR, aparece ao lado deles um constrangido
embaixador Roberto Azevêdo, ex-diretor-geral da Organização Mundial do
Comércio, com décadas de atuação na diplomacia comercial. Ele estava lá a
trabalho. Já os Bolsonaros só queriam atrapalhar.

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