Michelle e Valdemar Costa Neto ganham mais se o filho 01
de Jair perder a eleição
O que está em jogo no lar bolsonarista não é quem vai
disputar as eleições presidenciais de outubro – o príncipe ou a rainha, o peão
ou o cavalo. Hoje, e depois do Escândalo Master, ninguém consegue definir o
verdadeiro valor de face do bolsonarismo. O ex-capitão está na cadeia, cumprindo pena por golpe de Estado. A
ideia de um líder forte, encantador de serpentes, sumiu atrás das grades. A
reiterada exposição de suas fragilidades físicas desmonta a imagem do Mussolini
jabuticaba, do super-herói que vai “livrar o País” de alguma coisa. Seu filho
Flávio, autodenominado sucessor político do pai, registra nas pesquisas perdas
crescentes entre eleitores antes cativos de Jair. Aquele que se nomeia
candidato a presidente por direito de sucessão foi engolido pelo mar de lama do
banco de Daniel Vorcaro e de uma relação antipatriótica com os Estados Unidos,
a quem só falta pedir explicitamente que lidere um golpe de Estado no Brasil.
O legado político depositado no tabuleiro
do xadrez da direita brasileira em 2026 é muito mais que Flávio ou mesmo Jair.
O mais importante, para esse espectro, não é perenizar o bolsonarismo, mas um
eleitorado conservador que deixou de ser apenas um aglomerado de fanáticos em
torno de um líder e passou a reunir um contingente expressivo de simpatizantes,
por adesão ideológica, em torno de partidos políticos.
O PL é o principal deles. Embora tenha crescido e se
multiplicado a partir da adesão de Bolsonaro, o partido ganhou organicidade
apesar dele. O construtor da máquina partidária que floresceu e frutificou nos
últimos cinco anos foi o presidente da legenda, Valdemar Costa Neto. Michelle
Bolsonaro é parte dessa engenharia política não como esposa de Jair, nem apenas
como presidente do PL Mulher, mas pelas relações estreitas com igrejas
evangélicas de diversas denominações. Hoje, o partido que era um sopro e vivia
à margem do poder federal, qualquer que fosse ele, comendo as sobras, é a maior
força de direita do País. Tem quase 1 milhão de filiados, fez uma bancada de 99
deputados federais em 2002, elegeu 516 prefeituras e 5 mil vereadores em 2024 e
já começa a eleição deste ano com a vantagem de dez senadores eleitos em 2022,
que têm mais quatro anos de mandato.
Flávio Bolsonaro cometeu o erro de trombar de frente com
Michelle e Costa Neto. Impôs a sua candidatura como se fosse ordem do pai.
Alijou ambos das decisões de campanha. Agiu como um miliciano: entrou no PL
Nacional com um chute na porta e expulsou os donos. Patina agora nas pesquisas
de opinião, carregando na testa o carimbo de beneficiário de Vorcaro e de
vendilhão da pátria. É o candidato que pediu, e conseguiu, dinheiro de Vorcaro
e cujo irmão pediu ao governo norte-americano sanções contra o Brasil. É o
senador que, agora, sem intermediários, diz que vai colocar à disposição dos
EUA uma “equipe de transição” para decidir, se eleito, as relações do Império
com o Brasil. Quando for iniciada oficialmente a campanha eleitoral, Flávio irá
para as ruas carregando um desgaste do tamanho necessário para impedir uma
vitória eleitoral.
O senador esticou tanto a corda que, para o PL, é mais
vantagem que ele perca. O que Michelle tem feito, com a cumplicidade de Costa
Neto, é jogá-lo às feras. Pode continuar candidato, mas não será presidente.
Derrotado, terá a utilidade de puxar uma boa bancada federal, com o auxílio dos
votos antipetistas, e sua liderança acabará no dia seguinte à derrota. A
política regional, sob controle de Costa Neto, dará ao dirigente partidário uma
base parlamentar sólida, com forte poder de negociação. O presidente do PL, um
dos líderes mais longevos do Centrão, fará bom proveito disso.
O capital eleitoral evangélico também não cairá
automaticamente no colo de Flávio. Ele se espalha por todos os partidos. O
Republicano de Tarcísio de Freitas, inclusive, é considerado um partido de
propriedade de Edir Macedo, líder único e inconteste da Igreja Universal do
Reino de Deus, a maior do Brasil. Nas eleições passadas, definiu como
prioridade eleger uma forte bancada federal, capaz de barrar as agendas de
esquerda no Congresso. O presidente do partido, Marcos Pereira, nem sequer
compareceu à reunião do pré-candidato com os líderes do Centrão no Congresso,
logo depois de se autodeclarar candidato pelo PL. Silas Malafaia, o presidente
da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, ficou de costas para o filho de seu
líder após as pesquisas eleitorais mostrarem a debandada de votos evangélicos
ao candidato acusado de corrupção. “Não passo a mão na cabeça de corrupto de
direita”, disse, selando o rompimento com Flávio. •
Publicado na edição n° 1420 de CartaCapital, em 08 de
julho de 2026.

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