Julgamo-nos vitoriosos já antes do jogo. Vitoriosos do
engano e da ilusão
Não ganhar a Copa do Mundo de 2026 estava no destino de
todas as seleções que dela estão participando, menos no de uma, a que a
vencerá. Desta vez não seremos nós. Como não fomos em várias Copas anteriores.
No esporte, ganhar não é uma certeza, como perder também não o é.
A incerteza em tudo na vida é uma derrota. Essa é uma das
mais fortes concepções do senso comum do povo brasileiro. Um povo que até hoje
não se tornou um povo de verdade, a não ser na mera formulação jurídica. Somos
um conjunto disperso de diversidades que não se juntam nem se encontram.
Tudo é feito para nos dividir, a começar da
política e dos poderes. É uma de nossas características antropológicas de
nascimento. Mero ajuntamento de escravidões em nome de uma iníqua concepção de
riqueza e de acumulação de riqueza, estamos divididos e separados por essas
escravidões que não terminam nem se supera. Mesmo onde ela já não existe está
lá, na mentalidade que persiste e insiste. Não sabemos lidar e vivenciar a
liberdade possível, o direito que deveria assegurá-la. Somos vítimas de nossas
conquistas, que supomos grandes mesmo quando as apequenamos.
Riobaldo, em “Grande sertão: veredas”, de Guimarães Rosa,
antropologicamente diz: “O real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe
para a gente é no meio da travessia”.
Rosa colheu concepções populares sobre a vida nas situações
mais inesperadas da realidade brasileira. De “Os sertões”, de Euclides da
Cunha, incorporou a lógica dos jagunços e sertanejos, carregada de certezas
indecisas, nas respostas aos interrogatórios truculentos de oficiais do
Exército. “E eu, sei?”
Foi contestação frequente nas perguntas baseadas unicamente
em pressupostos militares, como se as vítimas fossem de teóricos da guerra.
Como a jagunça que, após essa resposta a um oficial, foi ali mesmo degolada à
vista do próprio Euclides da Cunha.
Resposta de quem está no meio da travessia, nem na saída de
um partir nunca nem na chegada de um nunca chegar. A síntese de Riobaldo é
sociológica e explicativa do que não somos, sendo para não ser. A realidade é
processo, movimento, mesmo no caminhar calculado, como numa partida de futebol.
O único brasileiro jogador de futebol que ganhou sempre e
sempre se superou foi Pelé. Começou adolescente, jogando pelo Santos, no
primeiro estádio brasileiro de futebol, num jogo em Paranapiacaba, no Alto da
Serra, em São Paulo, com o apelido de “Gasolina”, porque era preto.
Venceu o racismo e os racismos. Ganhou vida própria, com
identidade própria. Diferentemente do que tantos fizeram, os que se entregaram
às tentações fáceis da fama e do dinheiro, superou-se cada dia e todos os dias.
Foi ministro do governo FHC. Fez parte da equipe do governo
em visita oficial à Inglaterra. A rainha cumprimentou protocolarmente o
presidente brasileiro e, antes de cumprimentar os ministros, perguntou: “Onde
está o famoso Pelé?”.
Julgamo-nos vitoriosos já antes do jogo. Vitoriosos do
engano e da ilusão. Porque as verdadeiras vitórias do povo brasileiro, e são
muitas, nos vários campos de atividade e da vida, são de todos nós. Mas desde
criancinhas somos ensinados que são dos outros, dos que mandam e dos que podem.
Somos um povo que está sempre devendo favores a quem tem poder de mandar e de
enganar.
O futebol foi uma das poucas sobras de êxitos possíveis, que
capturamos, aperfeiçoando a cópia, no futebol de várzea. Cada terreno baldio,
em todas as regiões, foi ocupado como lugar de afirmação identitária de uma
prática em que se ganha podendo perder.
Aprendemos a ganhar, mas não a perder. Temos dificuldade
para compreender que perder é parte constitutiva do ganhar. Se não há a
possibilidade de perder, não há a possibilidade do futebol. Como de nenhum
outro esporte.
A única versão do futebol em que só se podia ganhar ocorreu
entre os índios Terena. Um aluno de pós-graduação em antropologia, da Faculdade
de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, decidiu fazer seu mestrado
sobre essa população indígena.
Entre os apetrechos de seu equipamento levou uma bola de
futebol, para mostrar o uso aos anfitriões. Ensinou-lhes a jogar, organizou
dois times. Para sua surpresa, os 22 índios dos dois times não se enfrentavam,
jogavam juntos. O adversário era a bola, contra a qual todos jogavam. Ela era a
caça. Ali o futebol era impossível porque sociedade desprovida da concepção de
competição, de vitória e de derrota. A bola perdeu.
Fico pensando no monumental Mané Garrincha, um índio
fulni-ô, de Pernambuco. Fala-se muito no seu futebol desconcertante.
Desconcertante por quê? Muito provavelmente porque Garrincha jogava futebol, um
esporte inglês, com “sotaque” terena, lógica terena. O adversário não podia
entender-lhe o jogo.
*José de Souza Martins é sociólogo. Professor
Emérito da Faculdade de Filosofia da USP. Professor da Cátedra Simón Bolivar,
da Universidade de Cambridge e fellow de Trinity Hall (1993-94). Pesquisador
Emérito do CNPq. Membro da Junta de Curadores do Fundo Voluntário da ONU contra
as Formas Contemporâneas de Escravidão, em Genebra (1996-2007. Entre outros
livros, é autor de “Desavessos” (Editora Com Arte).

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