Flávio balança, mas a extrema direita não cai
Cartas Marcadas
Cartas Marcadas é uma newsletter semanal que investiga a
ascensão da extrema direita, as ameaças à democracia e os bastidores do poder
em Brasília.
Há poucos meses, o senador Flávio Bolsonaro, do PL do Rio de
Janeiro, parecia reunir as condições para liderar a extrema direita na corrida
presidencial. Era o herdeiro político mais evidente do bolsonarismo, contava
com a força eleitoral do sobrenome e aparecia como o nome capaz de manter unido
um campo político que perdeu Jair Bolsonaro para a prisão, mas não perdeu seu
poder de engajamento.
Hoje, o cenário é bem diferente. A candidatura de Flávio
atravessa seu momento mais difícil. Desde maio, ela foi atingida por uma
sucessão de crises que se alimentam mutuamente. A nossa série Vaza Flávio revelou
documentos, áudios e mensagens que colocaram o senador no centro de um
escândalo de grandes proporções – que ele, até agora, não conseguiu explicar de
forma convincente.
Ao mesmo tempo, Michelle Bolsonaro rompeu o silêncio e
passou a fazer críticas públicas ao enteado, aprofundando divisões que antes
eram tratadas apenas nos bastidores. Rumores de que novos vazamentos podem vir
à tona aterrorizam a campanha do Zero Um. E, como se tudo isso não bastasse, a
relação de Flávio Bolsonaro e seus aliados com o tarifaço de Donald Trump
contra o Brasil também pesa contra o senador.
Nenhum desses fatores, isoladamente, explica o que está
havendo com a campanha eleitoral bolsonarista. Mas, juntos, ajudam a entender
por que aquele que parecia ser o nome natural da extrema direita enfrenta,
hoje, dificuldades que poucos imaginavam no início do ano.
Isso não significa, porém, que a eleição esteja decidida.
Pesquisas são fotografias de um momento. Ainda faltam meses de campanha,
debates, propaganda eleitoral, alianças e acontecimentos capazes de alterar o
humor dos eleitores. A política brasileira já produziu reviravoltas grandes
demais para que o resultado seja tratado como definitivo.
Ao mesmo tempo, há outro risco: acreditar que uma eventual
derrota de Flávio Bolsonaro será, por si só, o fracasso do projeto político da
extrema direita. Não será.
A extrema direita avança
O bolsonarismo nunca dependeu exclusivamente de Jair
Bolsonaro ou de sua família. Ao longo dos últimos anos, esse movimento
consolidou uma base eleitoral resiliente, formou novos quadros, ampliou sua
presença em governos estaduais, no Congresso, nas redes sociais e na sociedade
civil.
Embora Flávio tenha caído nas pesquisas eleitorais, um outro
candidato conservador passou a crescer. Como escrevi
na edição passada desta newsletter, Renan Santos, do Partido
Missão, ganhou força como referência para parte da direita radical.
O campo continua em movimento, procurando novos porta-vozes
para um eleitorado que, em grande medida, permanece mobilizado. Talvez o maior
erro seja, portanto, imaginar que toda essa disputa se resume ao Palácio do
Planalto.
No ano passado, meu colega Leandro Becker coordenou a série de
reportagens Senado no Alvo, mostrando como a extrema direita trata a
renovação do Senado como uma prioridade estratégica. O objetivo é ampliar a
capacidade de influenciar a indicação de ministros para os tribunais
superiores, julgar autoridades, analisar pedidos de impeachment de ministros do
Supremo Tribunal Federal e moldar, por muitos anos, o funcionamento das
principais instituições da República.
A Câmara dos Deputados também continuará sendo um espaço
decisivo para bloquear ou aprovar reformas, pautar costumes, restringir
direitos e impor derrotas a qualquer governo eleito nas urnas. Ao mesmo tempo,
a disputa pelos governos estaduais poderá ampliar ainda mais a influência da
direita sobre as polícias, os orçamentos e as máquinas administrativas.
Em outras palavras: perder a Presidência não significa,
necessariamente, que a extrema direita fracassará com seu projeto de poder.
Dependendo da composição do Congresso, poderemos assistir a novos ataques ao
STF, ao avanço de propostas contra direitos reprodutivos das mulheres e a uma
pressão institucional permanente sobre qualquer governo eleito.
É duro, mas é real: uma vitória de Lula pode coexistir com
uma derrota política para a esquerda.
É justamente por isso que resisto às leituras apressadas
desta eleição. Há motivos para quem se opõe ao bolsonarismo enxergar algum
alívio diante das dificuldades enfrentadas por Flávio Bolsonaro. Seria estranho
fingir que não há diferenças entre um cenário em que sua candidatura lidera as
pesquisas e outro em que ela enfrenta uma crise profunda.
Mas alívio não é o mesmo que tranquilidade. O verdadeiro
teste para a democracia brasileira não será apenas descobrir quem ocupará a
cadeira de presidente em janeiro de 2027. Será medir até onde um projeto
político autoritário continuará expandindo sua influência sobre as instituições
que produzem as regras do jogo muito depois do fim da campanha.
Estamos de olho
É por isso que, nos próximos meses, continuaremos
acompanhando não apenas a corrida presidencial, mas também aqueles que disputam
o controle do Congresso, dos estados e dos espaços de poder onde muitas das
decisões mais importantes são tomadas longe dos holofotes. São muitas cartas
marcadas que podem – e vão – fazer muita diferença.
E, como sempre, contamos também com quem acompanha nosso
trabalho. Muitas das melhores investigações começam com um documento, uma
denúncia ou uma informação enviada por um leitor. Em uma eleição como esta,
continuar revelando o que os poderosos prefeririam manter escondido talvez seja
mais importante do que nunca.
Portanto, se você conhece uma história que merece ser
investigada, tem acesso a documentos de interesse público ou acredita que há
algo importante acontecendo longe dos holofotes, envie uma mensagem pela
nossa página de fontes.
Até a próxima! E, até lá, cuide-se — e conte com a gente
para continuar iluminando o que alguns preferem manter no escuro.

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