Na investigação sobre os repasses de Daniel Vorcaro para
o filme de Bolsonaro, uma transação de 12,3 milhões de dólares chamou atenção
das autoridades
O senador Flávio Bolsonaro (PL), pré-candidato à Presidência
da República, agora é oficialmente investigado pela Polícia Federal no caso
Master. A apuração, autorizada nesta quinta-feira (23) pelo ministro do STF
André Mendonça, trata dos repasses milionários de Daniel Vorcaro para financiar
a cinebiografia de Jair Bolsonaro. A polícia investigará se o filho primogênito
do ex-presidente, junto como o irmão e deputado federal Eduardo Bolsonaro e o
também deputado Mario Frias, ambos do PL, praticaram os crimes de lavagem de
dinheiro, evasão de divisas e corrupção na negociação e, principalmente,
utilização dos valores enviados pelo entorno de Vorcaro, a pretexto da produção
do filme.
A piauí apurou que, no parecer que
apresentou ao STF, a Procuradoria-Geral da República apontou como suspeita uma
movimentação de 12,3 milhões de dólares da empresa Entre Investimentos –
ligada ao ecossistema de Vorcaro – e a Havengate Development Fund LP, que
administrava os recursos destinados ao filme. O fluxo foi identificado em um
Relatório de Inteligência Financeira (RIF), um tipo de documento produzido pelo
Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) que relata transações
atípicas ou suspeitas.
No parecer de nove páginas, a PGR não informa se os 12,3
milhões de dólares (que, na cotação atual, equivalem a cerca de 63 milhões de
reais) são referentes a uma única transferência ou a mais de uma. Também não
esclarece a data em que o dinheiro foi transferido. O parecer menciona a
previsão de um financiamento total de 24 milhões de dólares ao filme, mas não
confirma se todo esse dinheiro foi efetivamente transferido.
Com a decisão de Mendonça, passaram a ser formalmente
investigados, além de Flávio, Eduardo e Mario Frias, o empresário e
publicitário Thiago Miranda e a dupla Altieris Santana e Paulo Calixto,
responsável por administrar a Havengate. Calixto, além de sócio da empresa, é
advogado de Eduardo Bolsonaro. O inquérito também inclui o próprio Vorcaro e
seu cunhado, Fabiano Zettel – ambos já enrolados em outras investigações.
O despacho que autorizou a investigação é sucinto. A decisão
de André Mendonça não faz uma análise aprofundada das provas. A hipótese de
lavagem de dinheiro detectada pelo Coaf está relacionada à possibilidade de o
filme ter sido usado para dar aparência legítima ao envio e à utilização dos
recursos no exterior. Para apurar isso, a polícia levará em consideração a
forma como as remessas foram declaradas, os contratos apresentados para
justificá-las, os destinatários finais e a finalidade informada às instituições
financeiras.
Um dos pontos que deverão ser aprofundados é a participação
de Eduardo Bolsonaro na gestão do dinheiro. Segundo uma fonte com acesso ao
caso, o parecer da PGR menciona a existência de uma captura de tela que mostra
uma conversa entre o deputado e Thiago Miranda, na qual Eduardo diz: “O ideal
seria haver os recursos já nos EUA. Que dos EUA para os EUA é tranquilo. Se a
empresa brasileira a enviar aos EUA não tiver aquele grande orçamento que
mencionamos como exemplo, será problemático, vai ser necessário fazer as
remessas aos poucos e isto tardaria cerca de 6 meses, calculamos.” Esse print
foi acessado pelos investigadores porque foi compartilhado por Thiago Miranda
com Daniel Vorcaro.
A partir desse diálogo, a hipótese investigativa da PF e da
PGR, segundo consta no parecer, é que Eduardo orientou Altieris e Miranda na
gestão dos recursos. Ainda assim, não está claro, até o momento, se ele tinha
poder formal sobre a Havengate (administrada por seu advogado) ou se atuava
apenas como interlocutor dos donos da empresa. Essa será uma das questões
centrais da investigação: saber quem, na prática, decidia como os milhões de
dólares transferidos por Vorcaro seriam empregados e quem eram os beneficiários
dos pagamentos. Uma das hipóteses dos investigadores é que as verbas possam ter
bancado custos do deputado federal nos Estados Unidos, onde ele mora
há mais de um ano.
A documentação examinada pela PGR não identificou, por ora,
nenhuma contrapartida oferecida pela família Bolsonaro ao grupo de Vorcaro em
troca do financiamento – o que, caso se configure, poderá ser enquadrado como
crime de corrupção. Para apurar esse ponto específico, a PGR pediu um
levantamento das proposições legislativas apresentadas por Flávio Bolsonaro e
Mario Frias que possam ter atendido a interesses do Master.
Não foram autorizadas, por enquanto, quebras de sigilo
bancário ou fiscal, novas requisições ao Coaf, oitivas ou outras medidas
cautelares consideradas mais invasivas. A ausência dessas medidas não significa
que elas estejam descartadas. É provável que a PF reúna, primeiro, elementos
adicionais no material apreendido nas investigações relativas ao Master e, caso
encontre indícios mais concretos, volte ao STF para solicitar acesso a contas,
dados fiscais, comunicações ou depoimentos. Esse procedimento gradual procura
reduzir o risco de que a investigação seja anulada no futuro por falta de
fundamentação.
As informações de que Flávio procurou Daniel Vorcaro,
solicitou e cobrou pagamentos para o filme Dark Horse, reiteradas vezes, foram
divulgadas pelo site Intercept Brasil em maio deste ano.
Mensagens trocados entre ele e o publicitário Thiago Miranda, e também com
Vorcaro, indicam que o filho do ex-presidente da República entrou nas
tratativas com o banqueiro no fim de 2024 e, ao longo de 2025, passou a cobrar
diretamente a liberação de parcelas para o filme, mesmo quando o Banco Master
já estava na mira da Justiça.
Quando a negociação veio a público, o senador inicialmente
negou o financiamento ao filme. Depois, admitiu
ter procurado Vorcaro, mas sustentou que se tratava de dinheiro privado,
destinado a um projeto privado, sem recebimento pessoal ou oferta de
contrapartida. É essa mesma linha que Flávio, em busca de recuperar os pontos
perdidos nas pesquisas de intenção de voto, segue martelando sempre que trata
do caso.

Nenhum comentário:
Postar um comentário