PF investiga deputado federal Sóstenes Cavalcante, que
segue líder dos bolsonaristas
Excesso de barracos na direita talvez abafe o caso do
dinheirão vivo sem origem justificada
Jaques
Wagner (PT-BA) foi saído da liderança do governo no Senado por
suspeitas de fazer negócio com gente vorcarenta. Levou uns dias até cair.
Talvez pelo odor de santidade, digamos, o pastor Sóstenes
Cavalcante (PL-RJ),
líder do seu partido na Câmara, resiste faz meses, desde que a Polícia Federal
achou um saco de dinheiro no flat brasiliense desse deputado
federal, em dezembro do ano passado.
Sóstenes
disse que a dinheirama viria da venda de um imóvel em Ituiutaba (MG). Eram
R$ 467,8 mil em notas de cem, juntadas em um saco plástico achado em um
guarda-roupa. Não caberia tudo em roupas de baixo, decerto. A polícia e parte
do Supremo suspeitam que o dinheiro seria resultado de desvios de verba
parlamentar.
A extrema direita, a direita, boa parte da
dita e velha opinião pública mais vocal ou o evangelismo político-partidário
parecem querer que o caso fique dentro do armário. Sóstenes não causa sensação
maior nem depois de a Polícia Federal seguir umas pistas, como etiquetas dos
maços de tutu, e
chegar a mais amigos do dinheiro vivo, ao que parece parceiros do deputado.
É uma turma dona de empresas esquisitas, de gente que costuma sacar milhões em
notas de reais. Quem sabe sejam apenas aquelas pessoas excêntricas amalucadas,
que desconfiam de bancos e gostam de depósitos no colchão ou no armário. Ou
gente em quem a polícia não deve confiar.
Sóstenes já presidiu a Frente Parlamentar Evangélica.
Formou-se em teologia. É pastor evangélico. É de uma Assembleia de Deus. É
amigo de Silas
Malafaia. Foi contra o isolamento sanitário na Covid-19. Defende
a "vida" (é contra a interrupção voluntária da gravidez) e
armas, família e bons costumes, apesar de ter esse costume de guardar dinheiro
no saco dentro do armário. É um bolsonarista ferrabrás.
Pode ser que o caso de Sóstenes ainda não tenha causado
escândalo maior por causa do congestionamento de podres, mumunhas e salseiros
na direita extrema. Há, por exemplo, o
barraco que envolve Flávio Bolsonaro com Michelle Bolsonaro, dita
"Firmo" pelos inimigos íntimos. A madrasta dos filhos de Bolsonaro
diz temer a revelação de mais mutretas do enteado e reposta vídeos que tratam
das cafajestadas de políticos, empresários e outros nas bandalhas de Daniel
Vorcaro. Está dizendo "não mexam comigo", respondendo a ameaças
veladas de bolsonaristas que a detestam.
Há
ainda o ajudante de ordens de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos a dizer que
"mulher vota mal". Segundo esse sujeito, um Paulo
Figueiredo, mulher não "vota errado porque é burra ou inferior, mas sim
porque uma ideologia demoníaca, marxista, está destruindo a cabeça delas: o
feminismo", como disse a Monica Bergamo, nesta Folha.
O excesso de vexames pode ser uma explicação circunstancial
para a tolerância com bandalheiras bolsonaristas. O fato maior é que Flávio
Bolsonaro tem enorme ficha corrida, processos ensacados no armário, amizade
fraterna com Vorcaro e relações históricas com milicianos. Bolsonaristas
estavam no comando do poder político estadual do Rio de Janeiro até o início
deste ano, mandando em governo e Assembleia Legislativa (Alerj) infiltrados
pelo crime, pela corrupção policial, por facções como o Comando Vermelho, que
talvez domine ou dominasse a Alerj. Não tem causado escândalo terminal que essa
turma tenha um projeto de comandar o governo da República. Sóstenes inclusive.

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