Ele recebeu aceno favorável da vice dos sonhos e teve de
trocar de marqueteiro pela segunda vez em poucos meses
No dia em que recebeu um aceno favorável da senadora Tereza
Cristina, a vice dos sonhos para sua chapa, Flávio Bolsonaro teve de escolher o
terceiro marqueteiro em poucos meses. A boa notícia ainda precisa de
confirmação, e a má evidencia o caos que reina na comunicação da campanha,
fruto da propensão da família a intervir nessa área mais que nas outras.
A dobradinha com a colega de Senado e
ex-ministra da Agricultura de seu pai traria para Flávio dois atributos de que
ele carece: credibilidade e ascendência junto ao eleitorado feminino. Tereza
Cristina é uma política respeitada em setores da economia que não se restringem
ao agronegócio. Conseguiu a proeza de ficar do início ao fim do governo
Bolsonaro sem se envolver em polêmicas, saiu ilesa em episódios como a ideia de
“passar a boiada” nas pautas antiambientais ou os questionamentos sobre a
eficácia das vacinas e sobre as urnas eletrônicas.
É vista como nome técnico num mar de ideológicos, moderada
em meio aos radicais, uma âncora de estabilidade num agrupamento que adora uma
treta. Apesar de não ser uma feminista militante ou uma defensora em especial
das pautas de gênero, sua presença ajudaria a aplacar a imagem associada ao
bolsonarismo: a reprodução de falas e atitudes misóginas ou machistas. Ela
também poderia desempenhar um papel para apaziguar os ânimos entre Flávio e
Michelle Bolsonaro e para atenuar o estrago feito pelo vídeo da ex-primeira-dama,
que reforçou a ideia de que o enteado trata as mulheres com desprezo e
desrespeito.
O obstáculo para a concretizar a chapa é a preferência da
conturbada federação União Progressista por ficar livre, leve e solta na
eleição presidencial, para que cada seção estadual possa conduzir suas próprias
alianças sem a obrigatoriedade de compromisso com o presidenciável do PL.
Há vários emissários imbuídos da tentativa de convencer o
agrupamento comandado a muitas mãos a topar oficializar a aliança —algo que
seria mais fácil quando Flávio estava mais próximo de Lula nas pesquisas. Mas é
inegável que houve um avanço importante, uma vez que, até o encontro com o
pré-candidato na quinta-feira, ela repetia a cada oportunidade que seu plano
era concorrer à reeleição e postular a presidência da Casa.
O imbróglio no marketing parece mais difícil de contornar. A
chegada do jornalista Alexandre Oltramari parecia apontar para a
profissionalização da campanha, mas a gestão das sucessivas crises da
pré-campanha evidenciou que a última palavra nessa seara sempre será da
família.
Ideias que se mostraram contraproducentes — como a ida de
Flávio a Washington seguida do anúncio de novo tarifaço contra o Brasil ou o
convite a Javier Milei para participar da convenção do PL e cuspir marimbondos
na direção de Lula e Alexandre de Moraes — são exemplos de intervenções diretas
de Eduardo Bolsonaro que o time da comunicação teve de engolir.
Duda Lima, o terceiro titular a assumir a missão de dar uma
roupagem “moderada” ao filho Zero Um de Jair, enquanto os irmãos forçam a mão
na sinalização à ala mais radical e já convertida do bolsonarismo, ao menos tem
a vantagem de já ser gato escaldado na maneira nada técnica como o clã toca a
comunicação. A vitória em 2018, a partir de perfis do Facebook, mensagens de
WhatsApp e nenhum tempo de TV, ajudou a consolidar a ideia duvidosa de que
Carlos Bolsonaro é uma espécie de entendido em marketing político.
Nem as muitas crises no governo, como o gabinete do ódio ou
o “sequestro” de senhas do presidente da República pelo filho, nem a derrota em
2022 tiraram seu trânsito na área, e Flávio, o menos ideológico dos três filhos
do primeiro casamento, tem pulso suficiente para conter os irmãos. Diante da
deserção do segundo escolhido, Duda voltou atrás em sua alegada disposição de
se aposentar do marketing político e conta com a carta branca de Valdemar Costa
Neto para se blindar dessa ingerência. O tempo dirá se funcionará.

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