Quem quer que vença a eleição presidencial terá de lidar
com o problema fiscal
Não ser claro sobre as dificuldades à frente é uma forma
de estelionato eleitoral
Se as análises de economistas não estão erradas, 2027 terá
algo de hora da verdade. Não importa quem vença a eleição
presidencial, terá
de lidar com o nó fiscal em que o país se enredou.
A fórmula que Lula encontrou
para promover índices de crescimento confortáveis com baixo desemprego não
é sustentável. Ela se baseou em estímulos ao consumo e expansão de gastos
públicos. A prodigalidade do Executivo, sancionada e reproduzida pelo
Legislativo, impacta nos juros. Para
conter a inflação, o Banco Central precisa
manter taxas reais em níveis elevados, o que tem efeito sobre a dívida pública.
Pelas projeções, sob Lula 3, a dívida bruta do governo aumentará em 11 pontos
percentuais, chegando a 83% do PIB.
O eleito poderia ficar tentado a apenas
tocar o barco sem grandes mudanças na política econômica. Não funcionaria. Os
números estão à vista de todos. Se o governo não acenar com um ajuste
convincente, o mercado o promoverá por conta própria, jogando o dólar nas
alturas e cobrando prêmios ainda maiores para comprar títulos do Tesouro. Esse
ajuste "selvagem" tende a ser pior do que um planejado.
É aí que entra a política. Espero que os petistas
inteligentes tenham aprendido algo com o ocaso de Dilma
Rousseff. Toda campanha envolve algum estelionato eleitoral. Mas, se você o
levar muito longe, pagará um preço político bem mais elevado quando precisar
corrigir os rumos. Assim, por prudência aristotélica, Lula já deveria estar
moldando o discurso para uma virada na política.
A dificuldade é que seu principal adversário, Flávio
Bolsonaro, que teria menor dificuldade para abraçar uma agenda econômica
ortodoxa, evita detalhar as medidas de ajuste que adotaria, sugerindo que
benefícios sociais e aposentadorias permaneceriam intocados. E aí, numa
clássica armadilha de Nash, como Bolsonaro silencia sobre esses pontos, Lula
também se cala.
É ruim para o país, que em 2027, além de lidar com as
asperezas de um ajuste, terá de enfrentar as consequências de um estelionato
eleitoral de moderado a forte.

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