Candidatos precisam apresentar propostas para 50% da
população que está com nome sujo na praça
Entre vários números preocupantes da economia brasileira, um
deles é dramático: o país tem 83,9 milhões de pessoas negativadas no Serasa.
Isso significa 51% dos CPFs ativos atualmente. E, à exceção dos menores de 18
anos e dos maiores de 70, a maioria desses endividados vai votar em outubro.
São eles que decidirão quem subirá a rampa do Palácio do Planalto em 5 de
janeiro de 2027.
Nas eleições americanas de 1992, o consultor político James
Carville deu um conselho ao jovem democrata Bill Clinton, que desafiava George
H. Bush em sua tentativa de reeleição: “É a economia, estúpido”.
A mensagem, escrita em letras garrafais num cartaz pregado
na parede do comitê de campanha em Little Rock, Arkansas, lembrava ao candidato
que ele deveria sempre destacar os efeitos da recessão sobre a população
durante entrevistas e debates. A tática deu certo. Clinton derrotou Bush e
desde então o mote vem sendo repetido a cada pleito, em qualquer lugar do
mundo.
De lá para cá, porém, as questões
econômicas vêm influenciando as escolhas dos cidadãos de formas diferentes,
pois nem sempre variáveis como inflação e emprego são indicativos diretos do
bem-estar da população.
Na disputa de 2024, a inflação nos Estados Unidos tinha
caído de 9,1% no auge do pós-pandemia, em junho de 2022, para 2,4% ao ano. Já a
taxa de desemprego estava em 4%, patamar considerado de pleno emprego. No
entanto, mais do que a senilidade, a economia foi considerada determinante para
a desistência de Joe Biden e o retorno de Donald Trump à Casa Branca.
Naquela época, “affordability” foi o termo utilizado para
resumir a insatisfação do eleitor com a situação econômica. Apesar do sucesso
do Fed em conter a inflação sem agravar o desemprego, os reajustes de preços
acumulados ao longo da gestão Biden, assim como as taxas de juros, elevadas em
relação a seu padrão histórico, afetavam drasticamente a capacidade de
pagamento dos consumidores.
Aqui no Brasil, talvez estejamos observando fenômeno
similar. A inflação, ainda que acima do centro da meta, está relativamente sob
controle (4,44% ao ano) - o que é um mérito, considerando o choque na cotação
do petróleo depois do início da guerra no Oriente Médio. O desemprego, em 5,4%,
continua entre os mais baixos da série iniciada em 2012.
Ainda assim, a avaliação do governo e a intenção de voto em
Lula patinam. E a explicação para isso pode estar no endividamento expressivo e
na preocupante inadimplência prevalentes entre os brasileiros.
O raciocínio é simples: mesmo com uma taxa de ocupação
elevada - tanto entre os formais e os MEIs, quanto nos sem carteira que
complementam com bicos os benefícios governamentais - e com a contenção da
pressão altista dos preços nos supermercados, as pessoas estão estranguladas
com os boletos em atraso e os pagamentos de juros, que vêm sendo reduzidos em
doses homeopáticas pelo Copom.
Não é à toa que as pesquisas têm captado que medidas do
governo como a isenção do imposto de renda para quem ganha até R$ 5 mil
mensais, o Desenrola e o fim da taxa das blusinhas têm tido fôlego curto na
avaliação dos eleitores.
As causas para chegarmos a este ponto podem ser resumidas em
três forças. De um lado, aproximadamente 40 milhões de indivíduos se
bancarizaram a partir da pandemia graças ao auxílio emergencial, à popularidade
do Pix e à proliferação dos aplicativos bancários. Como esse novo público era
em sua imensa maioria de baixa renda e escolaridade limitada, sem conhecimentos
básicos sobre os produtos financeiros, tornou-se presa fácil de ofertas de
crédito abusivas de bancos e fintechs - sim, o sistema financeiro tem bastante
culpa pela inadimplência recorde. Para piorar, bets e canetas emagrecedoras
(legais e ilegais) induziram novas rodadas de descontrole das finanças
pessoais.
Apesar de o endividamento ser um dos principais problemas do
país, não se veem nas declarações dos candidatos à Presidência da República
propostas concretas para lidar com esse problema de dezenas de milhões de
pessoas e centenas de bilhões de reais.
Discutir saídas para a armadilha da inadimplência é um
imperativo social, econômico e financeiro.
Social, porque são milhões de brasileiras e brasileiros que
vivem estressados vendo seus ganhos serem corroídos por juros extorsivos.
É também um desafio econômico, pois o endividamento drena
recursos que poderiam ser empregados no consumo, estimulando setores que estão
rateando.
Por fim, é preciso conter a escalada da inadimplência para
evitarmos uma crise bancária. Quem alerta é o Fundo Monetário Internacional,
que na sua mais recente avaliação sobre a estabilidade do sistema financeiro
(FSAP, na sigla em inglês) brasileiro recomendou a adoção de práticas
responsáveis de concessão de crédito e limites mais rígidos na rolagem das
dívidas.
Economistas do mercado cobram de Lula e seus adversários
soluções para estabilizar a dívida do governo. No entanto, um desafio muito
mais complexo e urgente está em outro tipo de endividamento: o das famílias. E
sobre ele quase ninguém fala.

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