Em meio a tensões com diversos parceiros, o Brasil terá
que ser o bom negociador que sempre foi e, muitas vezes, ser o único adulto na
sala
A decisão do governo brasileiro de iniciar um processo pela
Lei de Reciprocidade contra os Estados Unidos foi tomada basicamente para não
desmoralizar a lei, segundo fontes do governo. Ela foi criada exatamente para
defender o Brasil em casos como esse, em que os países adotem medidas
unilaterais e injustificadas. A lei existe, precisa ser acionada. Mas isso é
bem diferente de retaliar os Estados Unidos, o que seria um tiro no pé.
— Não pode ser uma lei para inglês ver porque ignorá-la
serviria de incentivo a novas medidas contra o Brasil, venham de onde vierem.
Mas se vamos adotar as medidas de reciprocidade é outra história — explica essa
fonte.
Entre empresas, associações de classe do
setor produtivo, embaixadores especializados no assunto e professores de
política internacional há um quase consenso de que teria um efeito bumerangue.
As tarifas que subissem iriam prejudicar o consumidor brasileiro com alta dos
preços, que rebateriam na inflação. Além de prejudicar ainda mais os negócios
do país com os Estados Unidos.
O que se ouve no governo é que o processo tem prazos longos
exatamente para tentar abrir espaço para a negociação com os Estados Unidos,
tendo alguma coisa para fortalecer a posição do Brasil.
— Estaremos na mesa com algum instrumento do nosso lado. É
importante ter recursos de ação e um mínimo de equilíbrio de forças para se
buscar um acordo.
Esta é a estratégia do país, usar a lei para que ela não se
desmoralize, aproveitar os prazos amplos para encontrar algum caminho de
negociação, tendo um instrumento na mão.
A conversa com especialistas mostra que se o governo
realmente quiser retaliar será desastroso. O embaixador José Alfredo Graça
Lima, com uma enorme especialização no assunto, afirma que a retaliação não faz
sentido do ponto de vista econômico, comercial e eleitoral. Ele acha que não
haverá ganho eleitoral nenhum se a medida causar mais prejuízos às empresas,
além dos que estão enfrentando com o tarifaço em si. O diplomata admite que
acionar a lei pode ser a estratégia para abrir o caminho da negociação.
— A questão é o que o Brasil vai oferecer nessa negociação.
Se ele não tiver um ás na manga, o movimento será inócuo — diz Graça Lima que
já foi o principal negociador comercial brasileiro e hoje é vice-presidente do
Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri).
O embaixador avalia que, das questões apresentadas pelos
Estados Unidos no processo da seção 301 da Lei de Comércio, o único ponto que
pode ser discutido é a tarifa cobrada pelo Brasil no etanol americano. Porque
sobre o Pix não tem uma conversa possível. E os americanos têm ignorado os
avanços brasileiro contra o desmatamento.
Durante todo o período em que se deu a “investigação”
americana, os negociadores brasileiros relataram que perguntavam diretamente o
que eles queriam. E não obtinham resposta. No caso do desmatamento, o Brasil
mostrava os dados provando que o país está colhendo este ano os menores números
de desmatamento desde o início do monitoramento. Eles ignoravam as evidências
estatísticas de que o problema estava sendo enfrentado por este governo. Aliás,
no período Bolsonaro, as taxas de desmate aumentaram. Os negociadores então
perguntavam se eles queriam mais investimentos em prevenção, fortalecimento do
Ibama, mais recursos do BNDES, o que atenderia às preocupações deles. E jamais
receberam resposta. Porque, evidentemente, o governo Trump nunca teve interesse
real em proteção ambiental no Brasil.
O governo Lula precisará recorrer a toda a tradição,
habilidade e conhecimento acumulado da diplomacia brasileira na reta final
deste mandato. Há conflitos com vários parceiros. Os Estados Unidos tomaram
medidas contra o país que são desleais e ferem abertamente as leis de comércio
internacional. O presidente argentino atacou o presidente brasileiro de forma
insultuosa diversas vezes. A China, nosso principal parceiro, estabeleceu uma
cota para a compra de carne que já se esgotou, deixando produtores brasileiros
sem destino para as exportações. No caso chinês é protecionismo, no argentino é
provocação, no americano é agressão que tem, entre outras, motivações
eleitorais. O Brasil terá que ser o bom negociador que sempre foi e, muitas
vezes, ser o único adulto na sala. Esta é a hora da diplomacia.

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