A necessidade de líderes com “uma certa ideia do Brasil”
Em seu discurso no lançamento da pedra inaugural de
Brasília, Juscelino Kubitschek fala em sua “fé inquebrantável” no grande
destino reservado ao Brasil. Lido com os olhos de hoje, o discurso provoca um
sorriso irônico, pelo tom superlativo e pelo otimismo sem ressalvas com o
futuro do país. Na época, as palavras expressavam um sentimento real. O
presidente JK simbolizou, como nenhum outro, a confiança do Brasil em si mesmo,
como nação moderna, democrática, tolerante e criativa.
Era um outro país, ainda predominantemente rural, mas em
rápida transição para uma sociedade de massas urbana. Crescia a taxas chinesas.
A industrialização moldava um horizonte comum para todas as correntes
políticas, e a migração do campo para as cidades alimentava sonhos de ascensão
social para quem deixava a roça. Urbanização e industrialização rápidas serviam
de amálgama para uma sociedade cada vez mais conflituosa e polarizada.
Polarização mais intensa que a atual, exacerbada pela Guerra Fria, mas circunscrita
às elites e concentrada em algumas poucas capitais do país. A tevê apenas
engatinhava, e a comunicação de massa se dava pelas ondas do rádio, ainda assim
com restrito alcance regional.
Hoje o Brasil é outro. Um país muito mais
complexo, populoso e melhor, sobretudo para a grande maioria que então vivia na
pobreza, analfabeta, sem acesso a escola, atendimento básico de saúde ou rede
de proteção social, num país que precisava importar alimentos tão essenciais
quanto o trigo e seus derivados para atender ao consumo interno. Para não falar
que em meados dos anos 1950 as mulheres necessitavam de autorização especial
dos maridos para trabalhar fora, abrir conta bancária, comprar e vender bens, e
a discriminação racial era considerada simples contravenção punível com penas
leves.
Melhoramos, mas agora nos falta a confiança no futuro, que
naquela época havia de sobra. Segundo o Edelman Trust Barometer de 2026, menos
de um terço dos brasileiros acredita que a próxima geração viverá melhor do que
a deles.
Por que perdemos a confiança no futuro? Atribuir a perda à
polarização afetiva que se exacerbou ao longo deste século é um equívoco. Ela
não é a causa principal da perda de confiança, embora contribua para agravá-la
e dificulte a sua superação.
Ainda que difícil de ser mensurada com exatidão, a confiança
é ingrediente decisivo para um país avançar em seu desenvolvimento. Não será
possível recobrá-la idealizando o passado. O desafio é recuperá-la em novas
bases, tarefa complexa em uma quadra histórica em que a confiança escasseia em
quase todo o mundo, devido a transformações sociais e tecnológicas que criam
ressentimentos e incertezas e põem em xeque a legitimidade da democracia
representativa e do capitalismo liberal, em suas diferentes versões. Apesar de
responder a condicionantes gerais, a perda de confiança nas instituições e no
futuro, uma tendência global entre as democracias ocidentais, tem causas e
manifestações específicas em cada país.
A confiança do Brasil em si mesmo não despencou da noite
para o dia. Ao longo dos setenta anos que nos separam do lançamento da pedra
inaugural de Brasília, ela teve altos e baixos. Os primeiros dez anos
decorridos depois de 1985, quando se deu o retorno à democracia, não foram
fáceis. As esperanças criadas com a recuperação e expansão de direitos,
consagrados na Constituição de 1988, se chocaram contra a realidade de um país
cronicamente à beira da hiperinflação, submetido a repetidos e fracassados congelamentos
de preços e salários, num processo de desorganização econômica, crescimento da
pobreza e precarização da governabilidade.
Com o Plano Real, com as reformas institucionais dos
governos FHC, com a civilizada alternância no poder ao término de seus dois
mandatos e as mudanças sem ruptura introduzidas por Lula, que deixou o Palácio
do Planalto como o presidente mais popular da história, nas asas de um amplo
processo de inclusão e mobilidade social, o país recuperou a confiança em si
mesmo. Ao final de quatro mandatos presidenciais, dois de FHC e dois de Lula, o
Brasil pôde apresentar uma singular combinação de conquistas em sua história,
rara também em um mundo que mal se recuperava da crise financeira de 2008, a
maior desde 1929: estabilidade econômica com crescimento, mobilidade social
ascendente, governabilidade democrática, em um quadro de progressivo
aperfeiçoamento institucional. Uma das imagens desse período foi a capa da
revista The Economist, que mostrava o Cristo Redentor, com os braços abertos
sobre a Baía de Guanabara, decolando como um foguete em direção aos céus. Um
exagero, sem dúvida, pois nem tudo era tão sólido e sustentável na decolagem do
Brasil, mas representativo do sentimento da época.
O processo desandou nos anos subsequentes, em especial a
partir de 2014. Experimentamos hoje uma desconfiança crônica, alta e crescente
em relação ao futuro do Brasil. É este o sentimento predominante no país ao nos
aproximarmos das eleições de outubro deste ano, agora já com o elenco de
candidatos definidos pelas convenções partidárias. Antes de avaliar o quadro
eleitoral, cabe perguntar como chegamos ao atual estado de depressão da
confiança.
Na economia, se deu uma reversão drástica das expectativas
de mobilidade social ascendente e crescimento sustentado. Na política, ocorreu
uma série de escândalos, que levaram a uma luta fratricida entre PT e PSDB e à
emergência de juízes e procuradores imbuídos da missão de “passar o país a
limpo”, custasse o que custasse, e de políticos dispostos a “destruir o
sistema” para supostamente regenerá-lo. As jornadas de junho de 2013, por vias
tortuosas, deram em Jair Bolsonaro, e o fortalecimento do Centrão e a Lava
Jato, pelos descaminhos que tomou, produziram retrocesso e não avanço no
combate à corrupção sistêmica. A sociedade sofreu decepções em cadeia, e
cumulativas.
A mobilidade social ascendente dos governos Lula 1 e 2
desacomodou a sociedade brasileira. Não apenas foi mais longa e mais intensa do
que a é preciso ter uma visão sobre o futuro do país, que não deve ser
grandiosa, mas reconhecer que o Brasil não é um país qualquer observada nos
primeiros anos depois do Plano Real, como também esteve acompanhada de
políticas que mexeram real e simbolicamente com hierarquias sociais enraizadas,
a exemplo da chamada pec das empregadas domésticas e das cotas raciais para ingresso
no ensino superior. Nas famílias mais pobres, a perspectiva de ascensão social
gerou a expectativa de que estavam a caminho de uma vida de classe média mais
estável, previsível e favorável à realização pessoal e profissional.
Nos estratos de classe média e alta já mais bem
estabelecidos, a emergência de uma “nova classe média” provocou um misto de
irritação, pela “invasão” de espaços antes exclusivos, e insegurança, pela
percepção de ameaça a posições sociais adquiridas. Esses sentimentos foram mais
intensos porque os benefícios eleitorais da emergência da “nova classe média”
eram apropriados por um partido “de esquerda” que, em momentos de dificuldade
política, recorria à retórica do nós contra eles.
Assentados em bases relativamente frágeis, os sonhos da
“nova classe média” se frustraram na prolongada e profunda recessão de 2015 e
2016 e não se reergueram desde então, apesar da promessa de Lula 3 de que o
“povo voltaria a comer picanha”. Sem o boom de commodities, a reedição da
receita de expansão do gasto e estímulo ao crédito mostrou-se insuficiente para
retomar a confiança do povão. Não que a renda da base da pirâmide tenha ficado
estagnada desde então. Nos últimos três anos, ela voltou a crescer com força. O
consumo popular, mais ainda. Mas o sonho de virar classe média no curso de uma
geração se evaporou, com o endividamento das famílias, hoje em níveis recordes,
comprometendo parcelas crescentes da renda e impedindo a acumulação de poupança
e patrimônio.
Nada mais distante de uma vida previsível e estável de
classe média do que aquela que experimentam os milhões de trabalhadores por
aplicativos, que ralam cotidianamente em cima de duas rodas, símbolos de um
empreendedorismo de sobrevivência. Foi a segunda interrupção abrupta do mesmo
sonho desde o Plano Real. A primeira se deu quando a nova moeda sofreu forte
desvalorização no início do segundo mandato de fhc, em 1999.
No acidentado terreno do crescimento brasileiro entre 2014 e
2025, com poucos picos e muitos vales, esvaiu-se também a confiança no país
entre as classes mais acomodadas. Um dos sinais disso é a evasão de cérebros,
fenômeno que responde não apenas ao mau desempenho da economia, mas também à
falta de investimentos públicos e privados em ciência e tecnologia. Estudo do
Ipea sobre a saída de doutores e pesquisas de consultorias privadas sobre
executivos expatriados mostram que tem havido um aumento na evasão de cérebros
tanto no mundo acadêmico como no corporativo. Os dados batem com a experiência
dos pais da minha geração, eu inclusive, cujos filhos e filhas, em número
crescente, vivem no exterior em caráter permanente. Trajetória distinta da
minha geração e da anterior, que estudava e/ ou trabalhava no exterior para
voltar ao Brasil com uma formação profissional distinta. Teremos de aprender a
nos valer dessa diáspora, como fazem, em outra escala, China e Índia.
Como se fosse pouco, o medo da violência do crime se
espalhou. Apesar da melhora em muitos indicadores em algumas das principais
cidades do país, em particular da taxa de homicídios, o crime organizado passou
a ter presença em todo o território nacional, a controlar parte dele, a
conectar-se com máfias internacionais e a infiltrar-se no sistema político e no
aparato do Estado. Criou- se uma sensação de descontrole e desmoralização da
autoridade pública.
No aumento da descrença com o país, o crescimento anêmico se
soma à perda da confiança na política como meio pelo qual se constroem soluções
para os problemas coletivos. Faz tempo que a economia brasileira cresce pouco
(nos últimos quarenta anos, o crescimento da renda per capita foi de 1,2% ao
ano). A novidade agora é a sensação de que o país não conseguirá reencontrar o
caminho do desenvolvimento, com democracia, segurança pública e soberania
nacional. Não porque nos faltem oportunidades, mas porque teríamos perdido a
capacidade política de nos organizar em torno de objetivos nacionais de longo
prazo. Quando era ministro da Fazenda, Pedro Malan dizia que o Brasil tinha
problemas, mas nenhum deles era maior do que a sua capacidade de resolvê-los. A
deterioração da qualidade da política põe essa afirmação em xeque. Leva muita
gente ao extremo de apoiar a antipolítica, na vã ilusão de que por aí se
encontrarão as soluções.
Convém não exagerar no pessimismo quanto à qualidade das
instituições brasileiras. Elas se mostraram resilientes às investidas
autoritárias do governo de Jair Bolsonaro. Impediram o sucesso da conspiração
antidemocrática e conseguiram limitar o número já trágico de vítimas que uma
gestão incompetente e tresloucada da pandemia da Covid provocou. O sistema de
justiça criminal, em particular quando se dá a ação conjunta das polícias, da
Receita e do Ministério Público, tem procurado resistir à expansão do crime
organizado. O Congresso aprovou o novo marco legal do saneamento, em 2020, e a
reforma tributária do consumo, em 2025, para citar duas reformas importantes.
Feitas as ressalvas, não há como negar que o desempenho e
legitimidade das instituições estatais e do sistema político são declinantes. O
presidente da República perdeu poder de agenda, necessário para realizar
reformas em um país federativo e multipartidário, onde o Executivo federal é
chave para coordenar iniciativas de maior alcance. O Congresso abocanhou uma
fatia crescente do orçamento do país e ganhou poderes sem o correspondente
acréscimo em sua cota de responsabilidade sobre os efeitos de suas decisões. O
orçamento é cada vez mais engessado e o planejamento de longo prazo, mais
precário. O processo deliberativo dentro do Parlamento se desinstitucionalizou,
com o esvaziamento das comissões e a concentração de poder nas presidências das
Casas, que jogam um papel central na distribuição dos recursos das emendas ao
orçamento, o tema que mais interessa aos parlamentares, não raro o único a que
dedicam real atenção. Nesse contexto, matérias importantes são votadas sem
discussão ou escrutínio público, de uma hora para outra, frequentemente pelo
sistema remoto de votação, que prescinde da presença física do parlamentar. As
agências reguladoras se encontram subfinanciadas e, em graus variados,
cooptadas por interesses político-partidários. O Supremo Tribunal Federal
hipertrofiou-se – em parte por fatores alheios ao tribunal – e passou a ter a
sua autoridade contestada, como responsável por dar a última palavra sobre os
principais conflitos de interesses e valores que atravessam a sociedade
brasileira.
Esse quadro complica a chamada governabilidade, em
particular quando dirigida a promover mudanças e não apenas a acomodar
interesses setoriais. Está sujeito a curtos-circuitos, pelo choque entre os
poderes quanto aos limites das competências de cada um. Cria incerteza e coloca
em dúvida a capacidade de o país responder aos desafios de um mundo em rápida
transformação. Como reagir bem às demandas da transição ecológica, da mudança
climática, da regulação e do uso inteligente da inteligência artificial, que demandam
coordenação interna complexa e alianças externas de geometria variável, se
continuarmos consumidos por interesses setoriais e corporativos de curto prazo?
Mais preocupante é que o quadro de relativo desarranjo
institucional vem acompanhado de um processo de deterioração das virtudes
republicanas nas esferas de poder. Não me refiro somente a casos reiterados de
flagrante corrupção envolvendo membros do Executivo, do Congresso e dos
tribunais superiores, mas também a um amplo conjunto de sintomas que vão desde
a incapacidade de separar com clareza negócios familiares e funções públicas e
autoconter-se nos limites legais das respectivas esferas de competência até a
falta de um mínimo de recato na seleção dos ambientes a frequentar e nas
amizades a cultivar, para não falar na desfaçatez em legislar em causa própria,
no que os partidos políticos têm sido pródigos.
Não é preciso idealizar o passado – o Brasil, assim como
qualquer outro país, jamais foi ou será governado por varões de Plutarco – para
perceber a ocorrência desse processo difícil de mensurar, mas ainda assim
evidente, de deterioração das virtudes republicanas entre aqueles que detêm
parcela importante do poder, seja porque nele estão investidos pelo voto ou
pelo exercício de elevada função pública não eletiva.
Ao lançar a pedra inaugural da nova capital, JK se referiu a
ela como o “cérebro das mais altas decisões nacionais”. Hoje, o país olha para
Brasília e vê não uma elite dirigente com um mínimo de consciência de seu papel
e de sua responsabilidade e sim um conjunto de indivíduos interessados em
maximizar seus interesses próprios e/ ou das corporações públicas e privadas
que representam. Onde foi parar a divisão que antes de fato existia entre uma
elite parlamentar e o baixo clero?
Se me refiro a Brasília, não é porque a deterioração das
virtudes republicanas lhe seja exclusiva, e sim porque, como centro do poder
político, ela exerce um poderoso efeito-demonstração para o conjunto do país.
Em toda federação, em todos os poderes do Estado, se encontram exceções, mas
quem há de negar que a deterioração das virtudes republicanas está por toda
parte? A paixão desmedida pelo dinheiro reflete um fenômeno mais amplo,
presente na sociedade em seu conjunto, mas com particular intensidade nas engrenagens
que movem o poder. Não só aqui, mas em outras democracias no mundo, haja vista
o que se vê hoje nos Estados Unidos, onde os barões ladrões do século xix
retornam à cena sob novas vestes, operando agora em escala global, em aliança
com a Casa Branca.
De novo, não quero exagerar: sempre haverá aqui e em
qualquer lugar do planeta, em um mesmo ator político, individual ou coletivo,
um tanto de interesse público e outro de autointeresse. A questão é a dose. No
Brasil de hoje, o desequilíbrio é grande e vem aumentando, com o fracasso
desmoralizante da Lava Jato, a permanência de um sistema pouco transparente e
insaciável de financiamento dos partidos e das campanhas eleitorais – a
proibição das doações de empresas pelo STF mudou apenas a fonte principal dos recursos,
agora quase exclusivamente públicos – e relações permissivas entre empresas,
escritórios de advocacia e tribunais superiores.
Coexiste com essas tendências a expansão de uma nova e grave
ameaça ao estado democrático de direito e à própria soberania nacional: o crime
organizado, cada vez mais sofisticado em termos financeiros, econômicos e
logísticos. Em alguns lugares do país, ele não é um poder paralelo e sim um
substituto do poder do Estado. A deterioração das virtudes republicanas cria o
ambiente propício à infiltração do crime organizado no aparelho estatal.
A que distância estaríamos do que o historiador neozelandês
John Greville A. Pocock chamou de “o momento maquiaveliano”, aquele em que uma
república vive uma crise existencial? O conceito é utilizado pela ciência
política para descrever situações-limite em que as instituições e os valores
que sustentam o estado democrático de direito são colocados em xeque pela
corrupção moral, pela perda das virtudes políticas e pelo espectro da desordem.
Impossível medir essa distância.
Não chegamos a essa situação-limite, mas é preciso tê-la em
mente para avaliar os riscos que corremos. É papel das lideranças alertar para
esses riscos e apontar caminhos que permitam superá-los ou ao menos reduzi-los,
sem apelar às fórmulas fáceis do falso moralismo populista (lembremo-nos do
Fernando Collor, o “caçador de marajás”, hoje em prisão domiciliar) e a
retrocessos autoritários que, a pretexto de “sanear a política”, sufocam as
liberdades e destroem a democracia.
Reformas institucionais que reduzam os incentivos e aumentem
os custos dos atos de corrupção são indispensáveis. Uma delas é a Emenda
Peluso, proposta pelo ex-ministro do stf, Cezar Peluso. Transformada em PEC,
ela determina o início do cumprimento de pena depois da decisão na segunda
instância. Dada a morosidade da Justiça brasileira, a possibilidade de recorrer
ao STF ou ao Superior Tribunal de Justiça em liberdade afasta a ameaça de
prisão não raro indefinidamente para quem conta com advogados com trânsito e
competência técnica. Reformas dessa natureza, assim como medidas de combate a
privilégios nos setores público e privado, encontram grande resistência de
poderosos lobbies. Sua aprovação requer lideranças com coragem cívica, mas sem
ânimo populista, dispostas a mobilizar apoio político e social a seu favor.
Sem reconstrução da credibilidade na autoridade pública, o
sistema político continuará a girar em falso e a sociedade a se virar como
pode, gerando mais desigualdade, cinismo e violência. Uma agenda de reformas
que não fizer da reconstrução da autoridade pública a sua prioridade – com
medidas articuladas na área da Justiça, da gestão do Estado e da segurança
pública, compatíveis com a democracia e voltadas a combater a corrupção, os
privilégios e o crime organizado – está fadada a não ganhar a tração social e
política necessária para que o país se reorganize e amplie seus horizontes de
desenvolvimento. Reformas tópicas, ajustes fiscais, por mais importantes que
sejam, não terão esse condão. Tendem a se diluir ou naufragar se a descrença na
autoridade pública não for revertida.
Já aprendemos, espero, que não há salvadores da pátria, mas
a qualidade das lideranças faz diferença, em particular em certos momentos da
história de um país. O Brasil não está desprovido delas. Da centro-esquerda à
centro-direita, há bons quadros políticos, alguns promissores, homens e cada
vez mais mulheres, a serem selecionados pelo processo democrático. Falta que
tenham expressão maior no plano nacional.
Não é necessário que surja um De Gaulle. O Brasil de hoje
não é a França dos anos seguintes à Segunda Guerra Mundial. Não contamos com
heróis da Pátria, como ele de fato foi, muito menos precisamos de um militar
que arrogue a si esse papel. A reconstrução da credibilidade da autoridade
pública no Brasil é tarefa para as lideranças civis, com o auxílio das Forças
Armadas, dentro da Constituição. Para estar à altura do desafio, quem se
habilitar precisa ter uma “certa ideia do Brasil”, assim como De Gaulle tinha
une certaine idée de la France. A frase completa com a qual ele abre as suas
Memórias de guerra, livro escrito quando liderava no exílio a resistência à
ocupação da França pelos nazistas, é: “Em toda a minha vida, eu fiz uma certa
ideia da França. O sentimento me inspira tanto quanto a razão.” Mais à frente,
De Gaulle conclui: “Em suma, a França não pode ser a França sem a sua
grandeza.”
Essa “certa ideia do Brasil”, inspirada tanto pelo
sentimento quanto pela razão, não deve ser ufanista. Deve ter clareza sobre os
nossos passivos históricos, mas também sobre os ativos que adquirimos em mais
de duzentos anos como nação independente. Eles não são poucos. Somos uma nação
que se implantou sobre um imenso território, conservou sua unidade política,
inseriu- se construtivamente no seu entorno geográfico e no sistema
internacional, desenvolveu ao longo do século XX uma economia relativamente complexa
e diversificada e um Estado nacional com instituições e burocracias
comparativamente mais estáveis e eficientes do que a quase totalidade dos
países da antiga América espanhola. Uma nação que projetou certa identidade no
mundo, sendo ocidental nos valores, mas sem alinhamentos automáticos a potência
alguma. Sim, com uma sociedade profundamente desigual, mas crescentemente capaz
de se organizar com maior autonomia e contestar hierarquias de poder e
privilégios estabelecidos, em democracia, ampliando o espaço da cidadania e
nela incluindo quem historicamente dela esteve à margem.
Além de uma certa ideia do percurso do Brasil em mais de
dois séculos como nação independente, é preciso ter uma visão sobre o futuro do
país. Ela não deve ser grandiosa, pois aqui o sentimento de grandeza convida ao
irrealismo. Mas deve reconhecer que o Brasil não é um país qualquer: tem
tamanho, recursos naturais e biodiversidade, bases científicas e econômicas,
capacidades estatais, dinamismo social e expressão cultural, em suma, elementos
de hard e soft power suficientes para ambicionarmos um lugar relevante no
sistema internacional.
Nem o mundo nem o Brasil são mais o que foram nos anos 1950.
Não se trata de reeditar o Plano de Metas e os Grupos Executivos de JK, que à
sua época desempenharam um papel fundamental no desenvolvimento do país. Muito
menos de repetir o descontrole fiscal e monetário que fez a inflação dobrar
entre 1955 e 1960, um dos ingredientes da instabilidade que levou ao golpe de
1964. Democracia e controle sobre a inflação são hoje premissas inegociáveis.
Não estamos mais na etapa de implantação da infraestrutura
de transportes e energia e da indústria de bens de consumo duráveis nem da
expansão da área cultivada pela agricultura, nem mesmo de ampliação da rede
pública de ensino, como nos anos de JK. O desafio agora é dar um salto na
qualidade do capital humano, na aplicação de conhecimento e ciência aos
processos produtivos – em especial, mas não exclusivamente, naqueles setores em
que temos vantagens competitivas reveladas, como a produção de alimentos, energia
renovável e minerais críticos –, na incorporação do meio ambiente como variável
decisiva e intrínseca do desenvolvimento, nas políticas sociais e de fomento
aos pequenos negócios para seguir incluindo pessoas na cidadania e na economia
formal e promover a redução das desigualdades. Para tudo isso, teremos de ser
capazes de fazer bom uso das novas tecnologias digitais em particular a ia, sem
cair na ilusão de uma “soberania digital autárquica”, de um lado, nem nos
braços do neocolonianismo digital, comandado pelas grandes potências e pelas
big techs, de outro.
O salto que precisamos dar requer novas estruturas de
gestão. Os Grupos Executivos não nos servem mais de modelo, pois se restringiam
a membros da burocracia estatal, técnicos e grandes empresários. Tampouco são
adequadas estruturas como as do atual “Conselhão”, que não tem capacidade real
de coordenação de ações convergentes do governo, setor privado e sociedade
civil. Uma coisa é certa: precisamos com urgência preparar o Estado para
responder aos desafios contemporâneos do país. A agenda da reforma administrativa,
orientada por objetivos de mais longo prazo, precisa incorporar essa urgência.
Tão importante quanto definir prioridades e propor
estruturas de gestão à altura dos desafios complexos, muito exigentes em
matéria de coordenação entre diferentes atores e áreas de política pública,
incluída a política externa, é reconstruir um horizonte simbólico e
aspiracional que nos permita reconhecer a nós mesmos como uma nação com uma
história comum e um destino compartilhado. Não se trata de retroagir a um
ufanismo tolo e autoritário, que nega as nódoas do nosso passado que ainda
mancham o nosso presente, mas de recuperar, em uma nova chave, o sentido de que
ou somos uma comunidade nacional ou não teremos sequer o direito de sonhar os
nossos próprios sonhos e decidir democraticamente as nossas próprias
divergências.
Projetados contra esse pano de fundo, nenhum dos candidatos
à Presidência da República neste ano mostra estatura suficiente para exercer o
tipo de liderança à altura dos desafios do país. Nem por isso a diferença entre
os dois principais adversários deixa de ser incomensurável. Flávio Bolsonaro
expressa um conjunto de forças que colocou em xeque as instituições do estado
democrático de direito e se articula internacionalmente contra os interesses do
Brasil e em favor das conveniências e ambições de sua família.
A derrota política desse clã familiar é condição necessária
para a recuperação da confiança. É um clã familiar ligado na origem a grupos
milicianos e aos remanescentes dos porões da ditadura militar. A vitória de
Flávio Bolsonaro colocaria o país na iminência de uma crise institucional, dado
seu compromisso filial em indultar o pai, comprometeria a autonomia da política
externa brasileira, por suas relações de lealdade e subserviência à extrema
direita americana, em geral, e a Donald Trump, em particular, e traria de volta
ao poder quem fez do ódio aos adversários e do desprezo à cultura e à ciência a
sua principal forma de fazer política. A direita democrática, da qual o Brasil
precisa, seria uma das maiores beneficiadas da derrota do clã Bolsonaro. Receberia
a alforria pela qual não teve coragem de lutar.
Lula cometeu muitos erros ao longo de uma trajetória
política extraordinária, que tem a meu ver até aqui um saldo líquido positivo
para o país. O maior desses erros – tão grande quanto a infame campanha de
estigmatização do governo FHC, que o antecedeu e serviu de base para o êxito de
seus dois primeiros mandatos – é o de não haver preparado a sua própria
sucessão. Ser candidato a um quarto mandato que se encerrará quando Lula
estiver com 85 anos é um erro que ele próprio tornou inevitável.
Lula é uma estrela em extinção que ainda emite muita luz
pelo tamanho da sua liderança e pelo vigor da sua forma física e mental. Seu
coração está no lugar certo, mas suas ideias estão aferradas ao passado e a uma
retórica autocongratulatória que nenhum dos que o rodeiam tem coragem de
contrariar. Parece não se dar conta de que se esgotou a receita fácil da
estimulação do crescimento pela via da expansão do gasto público e do crédito.
Sofre de nostalgia renitente pelo nacional-desenvolvimentismo.
Parece também não se dar conta de que, a essa altura de sua
história, deveria marcar exemplarmente a máxima distância possível de práticas
que se tornaram corriqueiras, mas que nem por isso deixam de ser
antirrepublicanas, como o hábito de indicar homens de confiança para o stf.
Nessa matéria, embora não seja um caso isolado, Lula se sobressai: depois de
Dias Toffoli em seu segundo mandato, ex-advogado do PT e chefe da AGU em seu
governo, ele indicou, neste terceiro mandato, o seu próprio advogado pessoal, Cristiano
Zanin, seu ministro da Justiça, Flávio Dino, e Jorge Messias, seu chefe da AGU,
cuja nomeação não foi aprovada pelo Senado (e que Lula parece teimar em
reapresentar).
Não tenho dúvida sobre a escolha a fazer entre os dois
principais candidatos ao Palácio do Planalto. De qualquer forma, prevejo anos
complicados no próximo mandato presidencial. Com transformações geopolíticas e
tecnológicas que estão rapidamente redesenhando o mapa de poder no mundo, seria
altamente desejável que o país estivesse mais preparado para enfrentá-las.
Para 2030, teremos quatro anos para renovar o quadro de
lideranças no plano nacional, articular novas agendas para o país e superar a
polarização destrutiva, que é mais sintoma do que causa dos nossos problemas,
mas que os agrava e dificulta a sua superação. Até lá, não será pouco evitar
crises que comprometam as nossas chances de reconquistar o futuro.
*Diretor-Geral da Fundação FHC, é membro do Gacint-USP

Nenhum comentário:
Postar um comentário