Não escolher um lado é estratégia para continuar
relevante depois da eleição
A decisão da União Progressista e do Republicanos de
permanecerem neutros na eleição presidencial – e em boa parte das disputas
estaduais – parece confirmar uma velha máxima da política brasileira: Centrão
sendo Centrão. Mas por que o Centrão se comporta assim? A explicação usual
aponta para pragmatismo, fisiologismo ou falta de identidade programática. Há,
porém, uma interpretação menos normativa. Em presidencialismos
multipartidários, partidos podem seguir duas trajetórias distintas para
conquistar poder.
A primeira é majoritária: lançar um candidato competitivo à
Presidência e tentar controlar diretamente o Executivo. É uma estratégia de
alto risco e alto retorno. Quem vence fica com o maior prêmio. Quem perde pode
passar quatro anos amargando a oposição. É a estratégia historicamente seguida
por partidos como PT e, durante muitos anos, PSDB. Mais recentemente, o PL
passou a ocupar esse espaço à direita.
A segunda consiste em concentrar recursos
na eleição da maior bancada possível no Congresso e se transformar em pivô da
coalizão formada depois da eleição. O prêmio é menor, mas o risco também.
Em artigo com Bertholini, Bugarin e Pessôa, mostramos que
esses dois caminhos oferecem incentivos distintos. Quem disputa a Presidência e
perde terá que negociar, no dia seguinte, com alguém que passou meses
combatendo. Há um custo reputacional nessa conversão, especialmente em
ambientes polarizados.
Quem permanece neutro preserva opções. Ao não se comprometer
nacionalmente com nenhum dos polos, partidos do Centrão podem concentrar
esforços na eleição de deputados e senadores e chegar ao dia seguinte
disponíveis para negociar com o vencedor. Quanto maior a bancada, maior seu
valor. Durante décadas, o MDB foi o caso paradigmático desse caminho. Mais
recentemente, partidos associados ao Centrão passaram a desempenhar função
semelhante.
É justamente aí que a neutralidade nacional ganha
importância. Ao mesmo tempo, liberar diretórios para diferentes alianças
estaduais permite aos partidos acomodar preferências locais sem transformar a
organização nacional em adversária de nenhum dos candidatos presidenciais. Não
significa que suas lideranças sejam indiferentes ao resultado. Significa que,
como organizações, esses partidos parecem considerar seu principal ativo não a
capacidade de eleger o presidente, mas a de serem necessários a ele. Talvez,
portanto, a pergunta não seja por que o Centrão se recusa a escolher um lado.
Em um presidencialismo fragmentado e polarizado, não escolher antes pode ser a
melhor maneira de continuar escolhendo depois.

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