Os conselheiros da campanha petista sabem que o
presidente não tem muito de onde buscar votos na segunda etapa da corrida
O vento virou, e o favoritismo que vinha sendo atribuído a
Lula desde o escândalo “Dark Horse” e os entreveros na família Bolsonaro se
esvaiu diante das revelações das andanças de Lulinha por gabinetes estrelados
de Brasília. Levado de volta ao incômodo tema da corrupção às vésperas do
início da campanha na TV, e sem ter mais como se esquivar de debates e
sabatinas como fez até aqui, o petista busca desesperadamente mudar de assunto.
O irônico é ter de contar com o Congresso, que já está em ritmo de letargia
eleitoral, para ter alguma boa notícia para apresentar ao eleitor.
Soa um tanto a desespero achar que notícias
pontuais ou ainda por vir — como o fim da taxa das blusinhas ou a abolição da
escala de trabalho de 6 dias por 1 de folga — operarão aquilo que bilhões
despejados em medidas desde o ano passado não conseguiram: uma melhora
substantiva na aprovação do governo, indicador considerado fundamental por
especialistas em pesquisas para que o presidente possa sonhar com uma corrida
um pouco mais tranquila ao quarto mandato. Mas é exatamente este o clima para
os lados do PT: temor diante da escassez de cartas na manga.
O cientista político Maurício Moura, do Instituto Ideia,
observa que todas as vitórias de Lula até aqui se deram com um discurso que
vendia otimismo: de bonança econômica em 2002 e em 2006 (a ponto de, naquela
reeleição, nem os escândalos do mensalão e dos aloprados serem capazes de
abalar a popularidade do incumbente) e de defesa da democracia há quatro anos.
Agora, o que foi apresentado ao eleitor, de isenção de
Imposto de Renda a sucessivos programas de renegociação de dívidas, foi
recebido com um entusiasmo apenas momentâneo, mas não suficiente para talhar a
imagem de um governo exitoso, capaz de fazer jus àquela maré de otimismo dos
anos 2000.
A própria narrativa da preservação da democracia, em que
Lula investiu depois do 8 de Janeiro e que imaginava prevalecer após a
condenação de Jair Bolsonaro, perdeu força depois que os ministros do Supremo
Tribunal Federal mais atuantes nesses casos foram colhidos pelo furacão Master,
levando com eles a imagem da instituição.
Diante desse panorama, em que a aprovação de seu governo
permanece em patamares rigorosamente iguais à reprovação, e, mês após mês, a
rejeição pessoal de Lula grita números proibitivos, cresce no entorno
presidencial o medo do que pode acontecer num segundo turno contra Flávio
Bolsonaro — que, vejam só, era tido como adversário dos sonhos até ontem.
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Os conselheiros da campanha petista sabem que Lula não tem
muito de onde buscar votos na segunda etapa da corrida e passaram a reforçar
junto a candidatos nos estados e a cabos eleitorais na ponta das cidades a
ideia de um mutirão para garantir a vitória já em primeiro turno. Os bons
números do presidente no Sudeste, mostrados pela Quaest, foram celebrados como
essenciais para o sucesso dessa estratégia.
Nesse esforço de sprint final, qualquer catadão de boas
notícias passa a ser visto como o combustível que você coloca com os trocados
da carteira só para o veículo chegar ao destino. O fim da escala 6 x 1 será
embalado na propaganda da TV, de que Lula tem a maior fatia, como epílogo da
história que seus marqueteiros tentarão contar: de um governo que atuou para os
mais pobres, contra os bilionários matreiros.
É por isso que a ênfase no discurso contra o alto preço dos
alimentos, tendo a picanha como símbolo maior, é visto como notícia com
potencial de estrago igual ou maior que as traficâncias de Lulinha, Marcola e
companhia. Nada mais fatal para a tentativa de vender esperança com um
personagem tão desgastado quanto Lula que a evidência de que ele prometeu algo
muito concreto — a volta do churrasco e da cerveja—, e isso nunca chegou à mesa
do eleitor que agora é chamado a conduzi-lo ao Planalto pela quarta vez, para
perfazer 16 anos no poder, algo inédito numa democracia ainda tão jovem.

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