Oceano e terras raras, o progresso nos empurra para novas
dimensões do debate ambiental no Brasil. Do fundo do mar, nas camadas do
pré-sal, o País explora a riqueza do petróleo; do fundo do mar, quando o
pré-sal se esgotar, o País vai tirá-lo na Margem Equatorial, próxima à foz do
Rio Amazonas.
A nova frente de exploração do petróleo é delicada. O Brasil
hospedou a COP-30 em Belém com o objetivo de mostrar a importância e a
vulnerabilidade da Amazônia. O País se comporta como um líder na transição
energética e um interlocutor indispensável nos esforços para combater e mitigar
as mudanças climáticas. É uma contradição, portanto, explorar novas fontes de
petróleo na Amazônia. Ocorre que a correlação de forças internas aponta
irresistivelmente para a realização desse projeto. A única saída é considerar a
contradição como não antagônica e levá-la adiante sem que um dos polos seja
eliminado. A equação será explorar o petróleo com rigorosos cuidados
ambientais. Se depender de políticos do tipo Alcolumbre, os cuidados vão para o
espaço. Se depender da opinião internacional, o ideal seria deixar a Amazônia
em paz.
Viajei algumas vezes para a região. Inclusive escrevi um
texto para o belo livro de fotos de João Farkas, Costa Norte. O
objetivo de uma das viagens foi documentar os manguezais da região, os maiores
do mundo. Os manguezais são berçários da vida e hospedam uma grande
biodiversidade. Lá na região, há árvores de até 30 metros. Vi muitas pessoas
saindo do mato, com fieiras de enormes caranguejos. Na pequena cidade de
Bragança, próxima do mangue, o cardápio no restaurante é basicamente
caranguejo. Numa viagem ao Amapá, cruzei o Estado e visitei Oiapoque, onde há
uma inscrição “aqui começa o Brasil”. Oiapoque é o lugar onde a Petrobras
construiu um centro de apoio à fauna porque está mais próxima da área de
exploração do petróleo. A cidade não tinha saneamento básico nem água corrente
em todos os bairros. Vai passar por um grande crescimento, porque milhares se
deslocarão para lá em busca de trabalho. Esse processo na Margem Equatorial
servirá para colocarmos o oceano na agenda.
O Brasil está um pouco atrasado em relação à Austrália, por
exemplo, na proteção à sua área costeira, ameaçada por inúmeros perigos,
inclusive o da pesca predatória internacional. Demos um passo criando o Parque
Nacional do Albardão, com um milhão de hectares, no extremo sul do País.
As terras raras são o grande tema econômico do momento. Não
são tão raras assim, existem em abundância na China e no Brasil. Chamam-se
raras porque, quando foram descobertas em Ytterby, na Suécia, ocorriam em
minerais incomuns, difíceis de isolar um dos outros. No momento, americanos
exploram as terras raras em Minaçu (Goiás), lugar que se celebrizou pela grande
produção de amianto, algo que conseguimos proibir por lei, mas infelizmente
ainda sobrevive por meio de artimanhas jurídicas. Empresas australianas estão
se preparando para extrair terras raras em Poços de Caldas, Minas Gerais, sob
vigilância e oposição de grande parte da cidade.
Vale a pena conhecer a pré-história das terras raras no
Brasil. Há um livro da jornalista Tânia Malheiros que descreve a extração de
areia monazítica no Brasil no período da 2.ª Guerra. A monazita contém tório,
urânio, ilmenita, zirconita e terras raras. O tório e o urânio eram os metais
mais procurados pelos americanos. Cientistas escapados do nazismo conseguiam
separar os minerais na monazita, e contribuíram para a primeira instalação
nuclear no Brasil, em Santo Amaro, bairro de São Paulo. Um dos donos da empresa
era o poeta Augusto Frederico Schmidt.
Houve muita discussão nacional sobre a exportação dos
minerais e, inclusive, se criou, para variar, uma CPI no Congresso. O governo
acabou encampando a Orquiza e passou a tocar o negócio com o nome de Usam
Nuclemon, subsidiária da holding Nuclebrás. O livro de Tânia Malheiros conta a
história dos trabalhadores atingidos pela radiação. Começaram a trabalhar antes
de Hiroshima e Nagasaki, antes do desastre de Goiânia, não tinham consciência
do perigo para sua vida.
As terras raras passaram hoje a simbolizar o objeto de
desejo da indústria civil e militar. Servem para ímãs, telas de smartphones e
TV e também para equipamentos militares. A empresa que extrai terras raras em
Goiás está para ser comprada por outra ligada ao Pentágono.
Por outro lado, a regulamentação brasileira foi aprovada na Câmara e adormece no Senado. A exploração está se dando à margem do Rio Tocantins, onde está a represa da Serra da Mesa, maior reservatório brasileiro em volume de água doce. Em Poços de Caldas as terras raras serão exploradas por australianos, sob vigilância crítica. No planalto de Poços de Caldas há uma unidade das Indústrias Nucleares do Brasil (INB) que abriga entre 12 mil e 15 mil toneladas de resíduos radioativos, além de antigas estruturas de processamento de urânio. A extração de terras raras num lugar já traumatizado, sobretudo em Minas, que conheceu as tragédias de Mariana e Brumadinho, será delicada. Assim como será delicado explorar petróleo na Amazônia. Novos fronts numa luta já tão vasta.
Artigo publicado no jornal Estadão em 28 / 08 /2026

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