Nossos bandidos são hoje mais ricos do que os mais
famosos gângsteres americanos
Por que então não se vestem de acordo e continuam
parecendo pés-de-chinelo?
De vez em quando estouram um reduto do PCC ou do CV,
apreendem um caminhão de drogas, armas e dinheiro, e o que vemos de material
humano? Um brasileiro normal, de seus 30 anos, baixinho, quilos a mais, barba
por fazer, camiseta regata, bermuda e de chinelo, num fundo de garagem de
bairro pobre ou de comunidade. Se sua aparência reflete seu estilo de vida,
parece incompatível com as toneladas de pó que ele movimenta ou os milhares de
narizes sob seu controle em bairros chiques do Rio ou São Paulo. Eu me pergunto
para onde vai o dinheiro que esse sujeito ganha.
A pergunta tem a ver com os filmes
americanos, novos ou clássicos, em que os gângsteres dos anos 1920 se vestem
bem, moram em belos apartamentos e têm sempre uma loura decotada à mão. E, se
você pensa que isso é coisa de cinema, saiba que é verdade —eles gostavam de se
tratar.
É verdade que, no começo, não era assim. Os gângsteres
surgiram com a Lei Seca, em 1920, e, enquanto se limitavam a vender gororobas
fabricadas em banheiras, eram esculhambados como os nossos. Mas eles logo
tomaram também a prostituição, os speakeasies, as casas de jogo e até o show
business —cantores, músicos, night-clubs, tudo ficou nas mãos deles. E, então,
a começar por Al Capone, vieram os ternos bem cortados, os chapéus de feltro, a
pérola na gravata, as abotoaduras de ouro, as metralhadoras último tipo.
Nossos traficantes hoje superam aqueles gângsteres em dinheiro e poder. Por que, então, continuam a parecer pés-de-chinelo? Você dirá que os verdadeiros chefões do crime organizado são os magnatas, que moram nas mansões de luxo e não sabemos quem são. Mas, no americano, era a mesma coisa. Os bacanas não apareciam, e os famosos, como John Dillinger, Pretty Boy Floyd, Baby Face Nelson, Machine Gun Kelly e outros, eram como o nosso segundo escalão, só que nos trinques.
Nos trinques ou não, não adiantou. Quando o FBI desbaratou o comando, fechando a torneira econômica, eles tiveram de trocar seus ternos risca-de-giz pelo pijama listrado ou de madeira.

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