Foi quando alguém sem rosto, só máscara, surgiu cantando
seus mortos, seus caminhos tortos, sua alma cativa
Foi há 53 anos, num agosto como este. Num tempo em que 53
anos levavam mais de meio século para passar. (Era cedo para o garoto de 14
anos, que amava Chico e Elton John, descobrir que há segundos que não acabam
nunca e décadas que somem sem que se saiba aonde foram parar.)
Ele estava naquele estágio — depois do gibi e antes do
jornal, já com o beijo e ainda sem o orgasmo — que, por falta de um CID
apropriado, chamam de adolescência. E tudo à sua volta — casa, pai, desejo,
Deus, escola, comida, paisagem — atendia pelo nome de “interior de Minas”, que
era, a um tempo, geografia e metáfora.
Foi quando alguém sem rosto, só máscara, surgiu cantando
seus mortos, seus caminhos tortos, sua alma cativa. Uma cabeça anônima, servida
em prato de papel-alumínio, entre pão e vinho, feijão e cebolas. E lá no fundo
azul, na noite mineira, uma voz lhe iluminou a mente e ali fez uma dança, uma
festa.
Era um o que chegava do colégio das Irmãs
Sacramentinas, de uma longínqua 8ª série do extinto Primeiro Grau; outro o que,
fechado no quarto e diante do toca-discos, tomava a até então desconhecida
mescalina de si mesmo e se abria a sinestesias de rock rondó vira toada balada
folk blues.
“O patrão nosso de cada dia” lhe deu uma senha — a
etimologia — para infinitas conexões: pai e patrão, frutos da mesma árvore. “As
andorinhas” sinalizaram que a poesia estava por um fio — qualquer fio. A “Rosa
de Hiroshima” ardia, ferida cálida. E, acima de tudo, de todos, leve, muito
leve, aquele bicho indefinível — entre o saci e a fada, o homem e o lobisomem.
Seco, molhado, fazendo cena, um treco assim. Não importava que letras e músicas
fossem de outros: ali eram dele, eram ele. Pelo modo como cantava, como olhava,
como se movia — envolto em tempestade, a primavera entre os dentes.
O menino não sabia de nada — ou quase nada. Não chegara a
hora de falar — então escutava. Antecipava o instante de o vinho quente do
coração lhe subir à cabeça. De ter consciência para ter coragem. De crescer,
assumir pecados, romper tratados, trair os ritos. Com 14 anos e o peso de
quatrocentas mortes, soltava o ar no fim de cada faixa: Eu só sei de
mim, só sei de mim, só sei de mim.
Aquele disco, aquela voz — aquela ousadia — deram ao menino
mudo, inexato, uma aérea esperança, uma clave de sol. Mas nada o faria
imaginar-se, cinco décadas depois, num agosto como aquele, ainda ouvindo, com
igual assombro, essas canções. Não mais girando em torno de si mesmas na
vitrola; vindas de uma nuvem, num fluxo contínuo, a voz voando através de
palavras ainda por inventar: wireless, streaming, bluetooth. Ventos de outro
Norte, movendo novos moinhos.
O breve hiato que separa o garoto, em 1973, depositando a
agulha no vinil e este homem de 2026 com fones sem fio é exatamente a mesma
imensa distância que havia entre ele e seus avós, em 1920, a ouvir foxtrotes e
maxixes no gramofone, em discos de goma-laca, 78 rotações.
Nesses 53 anos, perdeu pai, mãe, Minas; jurou mentiras,
seguiu sozinho. No centro da própria engrenagem, inventou a contramola que
resiste.
Enquanto escrevo, ele retorna à casa azul, no Rosário, à
direita de quem atravessa a ponte. Fecha a porta do quarto. Abre o encarte.
Leva o cabeçote até a penúltima faixa do lado A. E Ney — leve pluma, muito
leve, leve — pousa. O Ney que lhe segredou, há meio século (ou há um segundo?)
que o que importa é não estar vencido.

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