A explicação para a dança dos números que se observa nas
pesquisas envolve muitas variáveis, mas uma delas é estrutural: o eleitorado
está se comportando de uma forma que torna o resultado mais imprevisível
Já começamos a temporada de intensificação das pesquisas de intenção
de voto. Ao longo dos últimos pleitos, uma maior variabilidade de resultados
encontrados entre os diferentes institutos de pesquisa tem sido observada de
forma mais frequente, além da ampliação do número de institutos operando. Afinal,
para que servem as pesquisas e por que os números têm nos parecido tão
instáveis?
Avaliar as intenções do eleitorado e mapear a sua evolução
ao longo das campanhas é algo importante em uma eleição. Os números
nos permitem observar não apenas quem está numericamente à frente, mas
movimentos de crescimento, queda, estabilidade, rejeição, indecisão e
transferência de votos.
Além disso, permitem que tenhamos um
cenário mais confiável sobre as tendências que de fato estão se dando na
sociedade. Quando a informação vem de uma fonte não diretamente interessada no
resultado, ela tem mais credibilidade e grau de confiança maior.
É por isso que dizemos que a boa informação qualifica
o debate público e democratiza o acesso a dados que, de outro modo,
ficariam restritos a campanhas e partidos. É esse poder de servir de termômetro
que torna as pesquisas um ponto de conflito permanente. Há uma relação direta
entre bons resultados de pesquisas e criação de ondas favoráveis a projetos
eleitorais.
A legislação eleitoral estabelece parâmetros para que as
pesquisas não virem uma arma de manipulação. Tanto a lei como as
resoluções do TSE disciplinam aspectos como o modo de registro da pesquisa
(quem contratou; valor e origem dos recursos; metodologia; critérios de
ponderação; margem de erro; nível de confiança; sistema de controle da coleta;
responsável estatístico; e quem realizou o pagamento), além de estabelecer o
modo de divulgação dos resultados. Qualquer irregularidade pode contaminar o
resultado e justificar a suspensão.
O que temos observado, em termos de novidade, é
uma dança dos números, o fato de que os resultados têm aparecido de forma
muito diversa a depender do instituto e do momento de captação. A explicação
envolve muitas variáveis, mas uma delas é estrutural: o eleitorado está se
comportando de uma forma que torna o resultado mais imprevisível.
Enquanto pelo menos dois estratos da sociedade são
extremamente polarizados e leais ao seu candidato, permanecendo com
ele aconteça o que acontecer, há um campo de votos muito voláteis e permeáveis
às flutuações do noticiário. São esses votos, menos de 5%, que têm sido
decisivos às vésperas do pleito.
Por isso, daqui até outubro, é preciso muito nervo, bom
senso e sangue frio para ler as pesquisas. Elas dizem menos sobre
certezas e mais sobre os humores efêmeros do eleitor nessa montanha russa
chamada campanha eleitoral.
*Doutora em Direito (USP) e professora da Universidade
Federal do Ceará

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