As mulheres estão mudando, as conservadoras ou não. Estão
amadurecendo sua consciência política, a percepção dos direitos e do preço de
sua autonomia. Estão compreendendo que têm um capital próprio, e muito valioso.
As mulheres estão, por isso, mais obstinadas
O voto das mulheres é o centro da eleição de 2026. É preciso
convencer o eleitorado feminino, conquistá-lo. Eu diria mais: pela
primeira vez, os candidatos tradicionais precisam se esforçar para dialogar com
as mulheres, olhando-as nos olhos. Cada um usará o repertório de que dispõe.
Avaliar seus movimentos será uma aula sobre como nossa sociedade divide os
papéis de gênero.
Na convenção do PT, Lula se queixou da falta
de representatividade no palanque do partido. Flávio Bolsonaro
ressaltou que filhas são cuidadoras em potencial, porque esse é seu papel
familiar. Romeu Zema disse que homens precisam trabalhar, e que as mulheres têm
seus assuntos domésticos. Ciro Gomes criticou as "mulheres agressivas do
PT", defensoras, segundo ele, de um "feminismo vazio".
Quando colocamos sobre a mesa
as múltiplas declarações, vemos as mulheres oscilando entre dois
estereótipos muito claros: o da mulher submissa, boa esposa e filha, obediente
ao líder familiar, e o da feminista militante, raivosa e agressiva, destruidora
de pontes.
Nenhum dos dois contempla o eleitorado feminino. A
mulher conservadora não é uma ovelha obediente que votará em quem lhe
mandar: as pesquisas de intenção de voto mostram isso. A mulher de esquerda,
feminista convicta, tem feito mais pelo combate à desigualdade social do que o
mais ortodoxo dos quadros partidários da esquerda histórica.
O que essas mulheres têm em comum? Por que é possível falar
em eleitorado feminino, em comportamento desse eleitorado e em
intenções de voto desse estrato? Há algo que nos perpasse como grupo, uma
espécie de identidade como sujeitos políticos? Eu diria que sim, e a explicação
exige de quem observa a política a capacidade de entender os efeitos
fragmentados, muitas vezes contraditórios, de mudanças estruturais de longo
prazo.
As mulheres estão mudando, as conservadoras ou não. Estão
amadurecendo sua consciência política, a percepção dos direitos e do
preço de sua autonomia. Estão compreendendo que têm um capital próprio, e muito
valioso.
As mulheres estão, por isso, mais obstinadas, para usar a
expressão de Sara Ahmed. Ser obstinada é ter vontade própria, é tornar-se
audível, exercer voz, querer estar presente. É desagradar, mesmo que isso renda
a alcunha de "agressiva". "Ser obstinada é ter uma vontade que
descontenta", escreve a autora.
Tenho a impressão de que nenhum dos nossos políticos nos
enxerga assim, como pessoas autônomas, cidadãs plenas. Enquanto não houver
diálogo de igual para igual, as mulheres continuarão a ser, nos discursos dos
políticos, apenas uma caricatura atemorizante, distante. Pergunto: quando eles
começarão a falar efetivamente com as mulheres reais em vez de falar das
mulheres imaginárias?
*Doutora em Direito (USP) e professora na Universidade
Federal do Ceará

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