Jerusalém ora representava pertencimento, ora anseio,
cenas do cotidiano emanavam perda, identidade
Na semana passada morreu o pintor e escultor palestino
Sliman Mansour. Vivera 79 anos. Até o fim, ano após ano, década após década,
ele repetia um mesmo mantra:
— A solução de dois Estados independentes, um para a
Palestina, outro para Israel, se dará um ano depois da minha morte.
A depender do Estado de Israel, essa fantasia precisa ser
enterrada. Mansour fazia parte da geração de artistas gerados na primeira
intifada dos anos 1970, que buscou uma linguagem visual para retratar o
significado da memória — da memória do que é ser palestino. Um pé de oliveira
adquiria a força-símbolo de terra e continuidade, Jerusalém ora representava
pertencimento, ora anseio, cenas do cotidiano emanavam perda, identidade,
resistência. Mansour foi quem mergulhou mais fundo nessa busca. Uma colheita na
primavera, um vilarejo rural, duas palestinas tocando flauta — a resistência em
sua obra é implícita.
Seu quadro mais icônico, “Camel of
hardship”, de 1973, até hoje adorna um sem-número de lares palestinos mundo
afora, em forma de pôster. A obra mostra uma figura humana em andrajos, curvada
sob o peso de um imenso fardo preso à testa por uma corda, e dentro do fardo
está a cidade de Jerusalém, com o Domo da Rocha em destaque. É o retrato de um
povo que continua a carregar no corpo pátria e memória, identidade e cultura, o
sonho do retorno. O restante da tela é um espaço vazio e abstrato, sem
horizonte claro. Vale a pena conferi-lo na internet.
A partir de outubro de 2023, com a saúde já declinante,
Sliman Mansour não conseguiu mais tirar os olhos de Gaza:
— Todas as imagens que me vêm à mente são horrendas. Algumas
delas não consigo apagar de mim.
Sua linguagem tornou-se mais abstrata para que a memória, a
dor, a beleza e a resistência pudessem perdurar. Para ele, permanecer enraizado
sempre foi o ato de resistência maior.
É precisamente contra esse enraizamento no chão, contra a
resistência existencial dos palestinos que Israel luta por uma solução final.
Tome-se o raciocínio do general reformado Giora Eiland, que serviu por 33 anos
nas Forças de Defesa de Israel (FDI), condensado em entrevista recente para a
emissora de rádio 103FM:
— Israel não tem interesse em ver Gaza reconstruída. É
melhor para nós que a Faixa permaneça destruída por várias gerações... Eles nos
atacam quando têm esperança, não quando estão desamparados, portanto, quanto
maior a desesperança e a destruição, melhor.
Apesar do seu linguajar exterminador, Eiland nem é
considerado ultraextremista no panorama atual da política israelense — ele
apoia um eclético bloco partidário contrário ao primeiro-ministro Benjamin
Netanyahu, curiosamente descrito como de centro.
— Gaza se tornará um lugar onde nenhum ser humano poderá
viver — acrescentou.
Israel está doente de si mesmo. Avi Dichter, de 73 anos, é
filho de sobreviventes do Holocausto. Já foi chefe do Serviço de Segurança
Interna do país e hoje ocupa o cargo de ministro da Agricultura e Segurança
Alimentar.
— Conquistaremos Gaza e não deixaremos um só palestino vivo
— prometeu.
Sua colega de gabinete May Golan, ministra da Igualdade
Social, é de outra geração, tem apenas 40 anos, mas certezas igualmente
consolidadas.
— Eu me sinto pessoalmente orgulhosa das ruínas de Gaza —
declarou ela em plenário do Knesset dois anos atrás, quando o número de civis
mortos pela ação militar israelense ainda não tinha chegado a 30 mil. Hoje já
são mais de 73.400.
— Gaza e sua gente precisam ser queimados. Toda criança
nascida neste minuto em Gaza já nasce terrorista. Não podemos viver com essas
criaturas perto de nós. — ecoou o ex-ministro da Educação Nissim Vaturi em
fevereiro de 2025.
— Não restarão árabes na Faixa de Gaza — concluiu a voz mais
engajada na anexação definitiva de toda a Palestina ocupada.
— Vamos fazer pelo Estado o que o Estado não pode fazer —
explicou, referindo-se a forçar os 2,2 milhões de palestinos entulhados em Gaza
a abandonar um chão tornado estéril.
Não que o Estado judaico esteja em compasso de espera enquanto adia o máximo possível a fase 2 do claudicante cessar-fogo em Gaza, instituído pela Casa Branca dez meses atrás. Ainda nesta semana, por ordem do ministro da Defesa, Israel Katz, a população do enclave foi informada de que as FDI poderiam alvejar qualquer criança ou adulto que soltasse uma pipa pelos céus do território. Alguns desses brinquedos de papel colorido haviam sido detectados pelos serviços de segurança em mãos infantis e considerados “atos de guerra”. Como justificativa foi citado o precedente de 2018, quando palestinos de fato lançaram balões e pipas contendo material incendiário por ocasião de uma marcha de protesto no enclave.
Hoje, as crianças de Gaza que soltam pipas sem explosivos sobre sua terra arrasada talvez servissem de tema para uma última obra de Sliman Mansour. Pelo simples fato de terem sobrevivido, são resistentes.

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