Governador acusou greve de política, mas é o que faz com
as concessões apressadas
Caso dos trens foi atestado de políticas mal planejadas,
que também atingem parques
O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, acusou
a greve
de ferroviários em seu estado, já encerrada, de política.
Greves são políticas em sentido amplo e essa característica pode se acentuar em
períodos eleitorais. Na disputa, acusações sempre aparecem.
O fato é que o movimento teve uma dimensão trabalhista. Por
outro lado, não há dúvida de que certas concessões e privatizações em curso em
São Paulo se enquadram bem no rótulo de políticas —ainda que mal feitas.
No afã de cunhar uma marca eleitoral e ganhar pontos com o
empresariado e a opinião pública antipetista, Tarcísio —recente anfitrião do
presidente da Argentina, o libertário Javier Milei— vem contribuindo para o
questionamento do dogma liberal que afirma ser sempre preferível privatizar,
pois aquilo que a iniciativa privada for capaz de fazer, fará melhor do que o
setor público.
Não é bem isso que vemos em São Paulo. O
exemplo mais candente são justamente as
privatizações das linhas 11-coral, 12-safira e 13-jade da CPTM, concedidas
à empresa Trivia Trens, no fim de junho.
Falhas gritantes, entre as quais um grave
incêndio na linha 12, levaram o governador a cancelar a concessão por 90
dias, recolocando os ramais sob controle da companhia de trens do estado.
Difícil imaginar um recibo de incompetência técnica e motivação política mais
evidente do que esse recuo.
O caso, diga-se, não é pioneiro em problemas ferroviários:
as linhas 8 e 9, concedidas à ViaMobilidade pelo governo de João Doria, em
2021, também ficaram marcadas por mau funcionamento e má prestação de serviço
aos usuários.
Em outras áreas, equívocos também se acumulam, caso das
concessões para alguns parques. O que poderia ser uma boa alternativa para
melhorar a qualidade dessas áreas verdes da cidade tornou-se um portal aberto
para a agressão à natureza e a mercantilização desenfreada e pouco inteligente
das unidades.
Tenho eu mais de dez anos, quase que diários, de lugar de
fala como frequentador do parque Villa-Lobos, onde os
descalabros vão de vento em popa, com cervejarias chamativas, praças de
alimentação duvidosas a até pedaços inteiros de vegetação cercados e cobertos
com leds, com bilheteria na porta para quem quiser pagar para ver o luminoso
desastre. Tapumes se erguem por todas as partes, enquanto o piso das pistas
para pedestres, sobre as quais um patrocinador imprime sua marca, se encontra
esburacado, com os bancos caindo aos pedaços.
Estou entre aqueles que não são principistas em matéria de
privatizações. Reconheço, com senso pragmático, as vantagens em diversos casos.
Em outros, não. Há situações em que a opção, se bem planejada e estruturada, é
preferível, mesmo com eventuais problemas.
Por exemplo, apesar dos inconvenientes que podem nos
desesperar na relação com as empresas de telefonia e internet, companhias como
a Telesp e a Telerj não deixaram saudade. Também seria melhor não pagar
pedágio, mas é claro que as concessões de rodovias em São Paulo deram bom
resultado.
Não é o caso de algumas das privatizações levadas a toque de
caixa pelo governador paulista, com resultados muitas vezes sofríveis e
contrários ao interesse maior da sociedade. E isso pode respingar na própria
imagem do mandatário privatista.

Nenhum comentário:
Postar um comentário