A dificuldade não está nas ideias novas, mas em escapar
das antigas
No Ano da Graça de 2026, a Teoria Geral de John Maynard
Keynes completa 90 anos. A primeira edição do livro seminal do pensador
inconformista foi publicada em fevereiro de 1936. Julgo conveniente iniciar
este artigo com o prefácio da Teoria Geral:
“A composição deste livro tem sido, para o autor, uma longa
luta de fuga, e a leitura dele deve ser, para a maioria dos leitores, um ataque
bem-sucedido para escapar dos modos habituais de pensamento e expressão. As
ideias expressas aqui, com tanto esforço, são extremamente simples e deveriam
ser óbvias. A dificuldade não está nas ideias novas, mas em escapar das
antigas, que se ramificam, para aqueles criados como a maioria de nós, para
todos os cantos da mente”.
No célebre artigo O Fim do Laissez-faire, Maynard ironizou
a ideia de que a busca do interesse privado levaria necessariamente ao
bem-estar coletivo. “Não é uma dedução correta, segundo os princípios da teoria
econômica, afirmar que o egoísmo esclarecido leva sempre ao interesse público.
Nem é verdade que o autointeresse é, em geral, esclarecido.”
Os efeitos negativos do darwinismo social
devem ser neutralizados mediante a ação jurídica e política do Estado e,
sobretudo, pela atuação de “corpos coletivos intermediários”, como, por
exemplo, um Banco Central dedicado à gestão consciente da moeda e do crédito.
Keynes acreditava que a cura para os males do capitalismo deve “ser buscada, em
parte, pelo controle da moeda e do crédito por uma instituição central e, em
parte, por um acompanhamento da situação dos negócios, subsidiados por
abundante produção de dados e informações”. Ele insistia na “direção
inteligente pela sociedade dos mecanismos profundos que movem os negócios
privados”, particularmente as decisões sobre a posse da riqueza marcadas pelo
conflito entre o investimento criador de riqueza nova – leiam-se emprego,
rendimentos e lucros para trabalhadores e empresários – e a acumulação de
valores fictícios, financeiros, estéreis para a comunidade.
No último capítulo de sua obra maior, intitulado Notas
Finais Sobre a Filosofia Social, Keynes constrói a síntese entre a sua
filosofia moral e a crítica à “teoria clássica” empreendida ao longo do livro.
Ele propõe um conjunto de políticas apoiadas nas concepções já sugeridas no
artigo de 1933, The Means to Prosperity: “O problema econômico é uma questão de
economia política, isto é, da combinação entre teoria econômica e a arte da
gestão estatal”.
O primeiro ponto desse arranjo de política econômica é a
“socialização do investimento”, entendida como a coordenação, pelo Estado, das
relações entre o investimento público e o privado. O “orçamento de capital” do
governo deve ser administrado de modo a minorar as incertezas que contaminam o
investimento privado. “Creio que uma socialização bastante completa do
investimento será o único meio de se aproximar do pleno emprego, ainda que isso
não exclua qualquer forma de cooperação entre a autoridade pública e a
iniciativa privada.”
O segundo pilar da proposta keynesiana trata da eutanásia
do rentier. A política bancária e de crédito deve ser administrada para
neutralizar “o poder de opressão acumulativo do capitalista para explorar o
valor de escassez do capital… enquanto sejam intrínsecas as razões para a
escassez da terra, isso não é verdade para a escassez de capital”.
O terceiro ponto reclama um sistema fiscal que mantenha
permanentemente a capacidade de redistribuir renda dos mais abonados para as
classes menos favorecidas, com o objetivo de manter o consumo crescendo à mesma
velocidade da expansão da renda.
Na Teoria Geral, Keynes clamava por uma distribuição mais
equitativa do ajustamento dos desequilíbrios de balanço de pagamento entre
deficitários e superavitários, como forma de evitar os desatinos competitivos
de “empobrecer o vizinho”. Isso significava facilitar o crédito aos países
deficitários e penalizar os superavitários. O propósito era evitar os
“ajustamentos deflacionários” e manter as economias na trajetória do pleno
emprego. Mais tarde, em Bretton Woods, Keynes fez uma proposta à Clearing Union,
uma espécie de Banco Central dos Bancos Centrais. A Clearing Union
emitiria uma moeda bancária, o “bancor”, destinada a liquidar posições entre os
Bancos Centrais. Ele imaginava que o controle de capitais deveria ser “uma
característica permanente da nova ordem econômica mundial”.
É fácil perceber a atualidade dessas recomendações de
política econômica. Mas é quase impossível vislumbrar sua aplicação no mundo
controlado pelas ideias do poder – econômico, financeiro e midiático – não,
como pretendia Keynes, pelo poder das ideias. •
Publicado na edição n° 1425 de CartaCapital, em 12
de agosto de 2026.

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