Carta determinou que presidente da República articule os
Poderes
Impeachment de Dilma e emendas, contudo, esvaziaram o
alcance de suas ações públicas
A Constituição
Federal de 1988 —seguramente, a melhor da história brasileira, a mais
democrática, que tirou os direitos humanos da entrada de serviço para
colocá-los na entrada social— trouxe uma grande dificuldade para o presidente
da República.
Se no anterior período, ditatorial,
ele tinha inúmeros poderes, agora precisa ser um Super-Homem: cabe-lhe
articular os Poderes, o Legislativo e o Judiciário, que tinham sido castrados
na ditadura militar, bem como os estados, que corretamente retomaram sua
autonomia, e ainda os municípios, que foram a chave da construção de nossa
sociedade e obtiveram em 1988 uma autonomia constitucional que antes não
tinham.
Tudo isso é ótimo, mas criou um enorme
desafio para o presidente. Já sustentei, no meu livro
"A Pátria Educadora em Colapso" (ed. Três Estrelas), que ele
precisa negociar com pelo menos umas 200 lideranças importantes, do Congresso
Nacional e do Judiciário, mas também da economia e da sociedade —e, se for
progressista, também com lideranças sindicais e talvez espirituais.
Essa posição de articulador foi dificultada pela emenda
constitucional 86, que o ex-deputado Eduardo Cunha
aprovou no começo de 2015 para esvaziar a presidente Dilma
Rousseff (PT).
Deixou sequelas institucionais graves ao dar a cada um dos 594 parlamentares um
feudo
orçamentário, com vastas somas de dinheiro —que eles destinam a quem
quiserem, com um controle frágil e que somente agora, graças ao ministro do STF
Flávio Dino, começa a ser disciplinado.
Isso faz parte substancial do Orçamento escapar à
possibilidade de fazer políticas públicas. Mesmo que parte dessas emendas vá
para algo positivo, como saúde, educação ou infraestrutura, não seguem o
planejamento que seria necessário. Não adianta construir uma estrada num
município se não se articular com uma rede viária, nem melhorar o atendimento
local de saúde numa especialidade se a atenção básica continuar frágil. E por
aí vai.
Além disso, o impeachment
de Dilma esvaziou o poder presidencial —não só o dela, o de seus sucessores— em
favor do Legislativo e do Judiciário. Embora esses Poderes sejam essenciais
para a democracia, o problema brasileiro é que quem articula todos eles é o
presidente da República.
Isso por duas razões. Primeira: o eleitor dá mais
importância à eleição
presidencial; ela é vista como Copa do Mundo, enquanto as legislativas
aparecem como disputa de banco de reserva. Erra nisso o eleitor, mas esta é a
realidade —o que significa que o poder presidencial tem um papel simbólico
crucial. Segunda: no presidencialismo, cabe obviamente ao presidente e a seus
ministros nortear as ações públicas. Isso se perdeu.
O presidente, assim, acaba precisando de um perfil
praticamente de Superman. Quem teve êxito nesse perfil foram FHC (PSDB) e Lula (PT). O
problema é que nem mesmo Lula 3 conseguiu recuperar para a Presidência esse
protagonismo necessário após a devastação operada por Jair
Bolsonaro (PL), que cedeu no que se chama "orçamento secreto".
Não sabemos como serão as coisas depois de Lula, mas sua
reeleição, de preferência com um Congresso mais responsável, nos dá uma nova
chance de recompor o sistema político brasileiro. Não temos outra opção
qualificada como ele.
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