A insegurança jurídica adia investimentos, interrompe
decisões empresariais, contamina as expectativas econômicas e aumenta a
frustração social e política
A vitória da extrema direita na Saxônia-Anhalt, estado da antiga Alemanha
Oriental, é mais um sinal de que a democracia liberal enfrenta uma crise que
ultrapassa fronteiras. A Alternativa para a Alemanha (AfD) obteve cerca de 44%
dos votos, mais do que o dobro da União Democrata-Cristã (CDU), de
centro-direita, e ficou próxima da maioria absoluta. O partido continuará
afastado do governo pelo Brandmauer — o “muro corta-fogo” que impede alianças
das forças democráticas com extremistas —, mas já condiciona toda a política
alemã.
A contradição é evidente: a barreira político-partidária protege as
instituições, mas não impede o crescimento eleitoral da AfD. A extrema direita
não precisa negociar, moderar suas propostas nem prestar contas pelos
resultados de um governo. Denuncia a todos, promete soluções impossíveis e
responsabiliza àqueles que lhe impedem o acesso ao poder. O fenômeno possui
causas econômicas, sociais e culturais. A estagnação, a desigualdade entre o
Leste e o Oeste alemães, a imigração, a transição energética, a guerra da
Ucrânia e a perda de referências comunitárias criaram um contingente de
eleitores que não se sente representado. Continuam votando, mas já não
acreditam que as instituições tradicionais sejam capazes de melhorar suas
vidas.
Existe um ambiente semelhante de
desesperança em grande parte do Ocidente. A globalização integrou mercados e
multiplicou riquezas, mas também desorganizou comunidades, concentrou renda e
reduziu a capacidade dos Estados nacionais de proteger seus cidadãos. Ao mesmo
tempo, os êxitos econômicos de regimes iliberais do Oriente são utilizados como
argumento contra a democracia, como se seus Poderes fossem obstáculos à
eficiência. O Brasil não está fora desse contexto.
Nossos problemas podem ser agravados por fatores
internacionais, entre os quais as pressões do presidente dos Estados Unidos,
Donald Trump, e as guerra do Irã e da Ucrânia, mas suas saídas são nacionais. A
resposta não está na substituição da democracia pelo autoritarismo, e sim na
recuperação da capacidade de governar para todos, oferecer serviços públicos de
qualidade, gerar prosperidade para os mais pobres e submeter todos à mesma lei.
O Estado democrático precisa se reformar para atender às expectativas do povo.
É nesse ponto que o caso alemão se encontra com a crise
brasileira. As diferenças históricas são enormes, mas o mecanismo político é
parecido. Aqui, a grande rejeição aos principais candidatos à Presidência
mostra que a maioria do eleitorado já não se reconhece nas alternativas
oferecidas. A polarização mobiliza bases fiéis, mas também produz fadiga,
ressentimento, medo e sensação de aprisionamento. Milhões de brasileiros
imaginam que, qualquer que seja o resultado eleitoral, o país continuará
submetido aos mesmos conflitos e incapaz de enfrentar seus problemas concretos.
A crise do Supremo Tribunal Federal acrescenta um componente
explosivo a esse ambiente. O STF deveria ser o ponto de estabilidade do regime,
o guardião da Constituição e o árbitro dos conflitos entre os Poderes.
Entretanto, decisões monocráticas contraditórias, disputas entre ministros e o
caso Banco Master transformaram a Corte no epicentro da insegurança
institucional.
Paralisia econômica
O problema ultrapassa os nomes de Alexandre de Moraes e de André Mendonça,
estão além da força de Flávio Dino ou de Gilmar Mendes. Quando os julgadores
parecem envolvidos nos fatos que deveriam julgar, a confiança no devido
processo legal é inevitavelmente abalada. As providências de Fachin foram
suspender decisões conflitantes, preservar o comando da Polícia Federal,
quebrar o sigilo das investigações já concluídas, retirar de Moraes a relatoria
do inquérito das fake news e submeter ao plenário a abertura de investigação.
São medidas necessárias, mas talvez insuficientes. É preciso esclarecer
integralmente os fatos, definir responsabilidades e demonstrar que nenhum
ministro está acima da Constituição.
Manifestos de entidades empresariais, associações civis e
ex-integrantes do Supremo sobre a crise possuem, nesse contexto, dois
significados. O primeiro é positivo: revelam que as elites do país procuram uma
saída dentro das instituições. Seus signatários não pedem a destruição do STF,
mas sua recuperação. O segundo é um alerta: quando setores responsáveis pela
produção e pelos empregos do país se mobilizam para denunciar uma crise
institucional, sinalizam que a instabilidade já ultrapassou os limites do mundo
político e jurídico, paralisou a economia.
A insegurança política e jurídica adia investimentos, interrompe decisões
empresariais e contamina as expectativas econômicas. Em consequência, por sua
vez, aumenta a frustração social e oferece combustível aos discursos
antissistema. Nenhuma muralha institucional será suficiente se, aos olhos da
população, aqueles que estão dentro dela abusarem do poder, protegerem aliados
ou se recusarem a prestar contas. A extrema direita cresce e captura o centro
quando consegue convencer as pessoas de que todas as instituições fazem parte
de um único sistema voltado para a própria preservação.
A crise do Supremo não favorece apenas um candidato ou campo ideológico.
Fortalece as narrativas dispostas a apresentar a democracia como fraude, o
equilíbrio entre os Poderes como conspiração e as garantias constitucionais
como obstáculos à vontade popular. A História nos ensina que a desesperança na
democracia é a antessala do autoritarismo.

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