Tática dos enredados na teia de Vorcaro é fazer um fogo
de encontro que iguale as suspeitas e evite qualquer apuração célere
A tática dos enredados na teia cada vez mais ampla de Daniel
Vorcaro para evitar que suas relações com autoridades sejam investigadas a
fundo e gerem consequências está clara: apostar na confusão embalada por um
silêncio que só não é mais aviltante do que as sonoras gargalhadas, daquelas de
sacudir o corpo todo, em que ministros do Supremo Tribunal Federal foram
flagrados pelo repórter fotográfico Brenno Carvalho, do GLOBO.
A refrega se deu na saída de uma sessão em
que Suas Excelências fizeram um esforço claramente teatral para afetar
cordialidade enquanto fingiam não haver um elefante de tamanho Master sentado
no meio do plenário. Horas antes, o presidente da Corte, Edson Fachin, havia
mandado recados a todos os envolvidos de que estava disposto a, uma vez mais,
contemporizar, parar a bola enquanto estudam, sempre a portas fechadas, uma
maneira de reduzir danos para si mesmos.
Só essa atitude foi capaz de evitar que os ministros
extravasassem no plenário a ira que cultivam uns em relação aos outros. Entre
alinhamentos mais ou menos definidos e aqueles cuja posição hoje parece mais
difícil de cravar, a unanimidade triste é a aquiescência de todos, enredados ou
não, com esse pacto de silêncio em público — e a galhofa quando imaginam estar
preservados atrás das cortinas.
A revolta, ontem, daqueles que não se dignam a vir a público
prestar contas à sociedade de que são servidores, era com o fotógrafo. Que
injustiça, uma vez que estavam rindo de uma engraçadíssima piada sobre
PIS/Cofins contada por Flávio Dino, e não fazendo graça com a crise que arrasta
a instituição de que são parte para a lama.
É sempre assim. Quando foram flagrados ensaiando votos e
trocando impressões pelo aplicativo interno de mensagens nas sessões de
recebimento da denúncia do mensalão, em 2007, os ministros tomaram como
providência tirar repórteres e fotógrafos dos lugares localizados atrás de suas
próprias cadeiras. Só falta quererem repetir a dose agora, eliminando os
jornalistas, e não o bode Vorcaro, da sala.
Fachin alimentou muita expectativa de que faria uma gestão
inovadora em termos de transparência e prestação de contas no Judiciário.
Demonstrou não ter força sequer para dar a largada. Agora, aceita de bom grado
a função de armar a retranca para os colegas e representantes máximos do
Ministério Público e da Polícia Federal, que beberam uísque e fumaram charuto
em festas além-mar para as quais ele não foi convidado. Triste papel.
Desde que o relatório da PF centrado em Alexandre de Moraes
e sua relação umbilical com Daniel Vorcaro vieram à tona, a barafunda criada
com vazamentos em todas as direções e andanças de aliados do ministro por
gabinetes na Praça dos Três Poderes só tem um objetivo: criar uma cacofonia tal
que faça com que não se distinga o que de mais grave existe num cenário de
corrupção generalizada, promovida por alguém que imaginava poder comprar
inimputabilidade — e quase conseguiu. O auge desse diversionismo foi o anúncio,
por parte de Moraes, de pedido para investigar o colega André Mendonça no
inquérito das fake news. A inação de Fachin fez com que Moraes se sentasse na
cadeira dele.
Nesse cenário em que se sacrificam as instituições para
salvar o que resta da imagem de alguns, chama a atenção a disposição de
políticos e até intelectuais em fechar os olhos e praticar contorcionismo para
relevar o injustificável, quando quem mete a mão na cumbuca está no seu “lado”
do cada vez mais burro alinhamento ideológico.
Nessa toada, o mais surreal é ver a esquerda dando a vida
para defender Moraes, nomeado pelo “golpista” Michel Temer, só pelo “papel em
salvar a democracia”. Preservar a Constituição e a democracia, quando se é um
magistrado da Corte constitucional, não é favor, é dever inescapável. Julgar e
condenar golpistas não é heroísmo, é função precípua do STF.
Fazer isso para, em seguida, se valer das garantias
conferidas à função para se blindar de qualquer investigação é conspurcar a
mesma democracia, de outra forma. Já passou da hora de deixar de lado esse papo
de “dívida de gratidão”.

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