Líderes das pesquisas ajustam discursos e incorporam
propostas para o futuro do tribunal, enquanto tentam conter desgastes do caso
Master
Com a escalada da crise no Supremo Tribunal Federal (STF), o
futuro da Corte ganhou centralidade nos discursos dos líderes da corrida
presidencial e passou a ser usado como estratégia eleitoral pelo presidente
Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e pelo senador Flávio Bolsonaro (PL), ao mesmo
tempo que buscam se desvencilhar dos impactos negativos do escândalo do Banco
Master para as respectivas campanhas.
Flávio, que é investigado em inquérito sobre repasses do
ex-banqueiro Daniel Vorcaro para o financiamento do filme “Dark Horse”, repete
a acusação de perseguição e tenta explorar a indignação de parcelas do
eleitorado apresentando-se como quem poderá mudar a composição do tribunal. Na
quinta-feira, classificou como “terceira facada” a decisão do ministro Flávio
Dino de levantar sigilos sobre as investigações que envolvem a produtora Karina
Gama, do filme “Dark Horse”. Na sexta-feira, quando se tornou público que ele
era formalmente investigado no inquérito sobre responsabilidade de Mendonça,
procurou demonstrar tranquilidade. “Para mim a melhor coisa que pode acontecer
é a transparência total sobre esse assunto, porque vão só confirmar o que eu
sempre falei”, disse, em visita a Manaus. No sábado (12), não comentou o tema.
No domingo (13), cancelou toda a sua agenda pública, prevista em Presidente
Prudente (SP), alegando mau tempo.
Lula, que tenta rebater a associação feita
pelos adversários entre seu governo e Moraes, incorporou às suas propostas a
reforma do Judiciário, com a defesa de mandatos para novos integrantes do
Supremo. Na sexta-feira, em entrevista ao SBT, foi enfático ao demarcar
distância em relação aos ministros da Corte. “Se o Alexandre de Moraes é
culpado, ele tem que pagar. Se o Mendonça é culpado, ele tem que pagar. Se o
Fachin é culpado, ele tem que pagar”, afirmou. No sábado, em agenda em
Curitiba, foi além: “ninguém pode ser ministro da Suprema Corte para ficar
rico”, disse.
Pesquisa Datafolha divulgada na sexta-feira (11) mostrou
Lula com 39% dos votos no primeiro turno e Flávio com 35%, com variações dentro
da margem, de erro de dois pontos percentuais, em relação à pesquisa da semana
anterior (Lula, 38%, e Flávio, 33%). No segundo turno, o presidente teria 46% e
o senador, 44%, mesmos percentuais da rodada anterior, em empate técnico.
Segundo a pesquisa, 76% dos entrevistados pensam que
“ministros do STF têm poder demais” e 71% acham que “o STF é essencial para
proteger a democracia”. Para 85% dos eleitores, as acusações contra Moraes não
mudaram a decisão de voto para presidente, enquanto o pedido de investigação
contra André Mendonça não afetou a escolha eleitoral de 86%.
Os ajustes de rota mobilizaram os bastidores das campanhas
nos últimos dias e, segundo estrategistas de ambos os lados, têm sido definidos
de acordo com os desdobramentos da crise a cada dia, já que o controle do
assunto está nas mãos do STF. Para analistas, o debate se tornou incontornável
às vésperas da eleição e evidencia a contaminação da Corte pela polarização,
com prejuízos institucionais.
A transformação do STF em arma eleitoral de Flávio ficou
exposta em seu discurso na manifestação de 7 de Setembro na avenida Paulista,
com a promessa do senador de, caso eleito, indicar cinco ministros para o STF
de perfil conservador. O cálculo do candidato inclui as três vagas previstas
com aposentadorias, mais a cadeira que está vazia desde a saída do ministro
Luís Roberto Barroso e a vaga aberta com eventual impeachment de Moraes,
bandeira dos bolsonaristas.
Ajustes de rota mobilizaram os bastidores das campanhas nos
últimos dias
Na avaliação de auxiliares, Flávio pode atrair eleitores
independentes se conseguir transmitir a capacidade de modificar a composição do
Supremo. Além disso, a pauta tem potencial de aglutinar a base conservadora, em
razão do histórico de confronto da família Bolsonaro com o STF e a queixa de
perseguição à direita.
A necessidade de reação à crise levou a campanha do PT a
fazer acenos a eleitores insatisfeitos com o STF, defendendo o aprofundamento
das investigações que envolvem ministros e propondo medidas como código de
ética para o Judiciário e o Ministério Público, além do fim dos supersalários.
Lula também se disse favorável à discussão sobre mandatos com duração limitada
para ministros do Supremo, afirmando que “ninguém pode ficar 40 anos no mesmo
cargo”. Ele defendeu, ainda, rever a atuação no Supremo de escritórios de
advocacia ligados aos magistrados.
O presidente nacional do PT, Edinho Silva, admitiu que a
conjuntura da eleição “mudou totalmente” com a escalada da crise, mas ainda há
discussões sobre como conciliar os aspectos institucionais da Presidência com
uma resposta às cobranças do eleitorado diante das suspeitas e conflitos
trazidos à tona no STF. O PT tem apostado na vinculação de Flávio a Vorcaro
para tentar ampliar a rejeição do adversário e ligá-lo à questão da corrupção.
Em resolução, os petistas apoiaram a reforma do Judiciário e disseram que
ninguém está acima da lei.
O pelotão dos candidatos menos cotados tentou de alguma
forma capitalizar o episódio. O terceiro colocado nas pesquisas, Augusto Cury
(Avante), publicou em suas redes a frase “não vota em quem está na agenda do
Vorcaro”. De alta depois de uma internação por pneumonia em São Paulo, Ronaldo
Caiado (PSD) fez uma constatação: “O processo do Supremo sobrepôs o processo
eleitoral. Ninguém está discutindo eleição.”
A consolidação do STF como pauta dos candidatos ilustra o
que a cientista política Graziella Testa classificou, em entrevista ao Valor,
como “instrumentalização” dos Poderes. Para ela, que é professora da
Universidade Federal do Paraná (UFPR), a situação foi acentuada após o 8 de
Janeiro, que reforçou o antagonismo entre dois lados e impactou a forma como o
STF é percebido.
Testa avaliou como nociva a visão do STF como “ator
político-partidário”, por comprometer a confiança no sistema democrático. “A
ideia de que ser contra ou ser a favor do Supremo é estar encaixado numa
ideologia específica é prejudicial para a democracia e para os debates
representativos”, observou. Sobre o protagonismo do STF na campanha eleitoral,
a professora foi cética a respeito de um debate aprofundado de mudanças no
Judiciário, acreditando que a dinâmica do ambiente eleitoral favorece uma
“personalização” do conflito.
Segundo Sergio Denicoli, CEO da AP Exata, os monitoramentos
de redes sociais feitos pela empresa mostram que o STF “tomou a dianteira”, mas
já vinha aparecendo entre os temas que mobilizariam a agenda da eleição, por
motivos como a “politização” de inquéritos em andamento na Corte. O cientista
de dados disse que ainda é preciso medir os impactos para Lula e Flávio, mas o
momento é agudo para as campanhas, com variações mínimas podendo ser decisivas
e uma disputa pelos votos dos moderados.

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