Captura da campanha por assuntos inflados
artificialmente, como guerra religiosa que foi parar no STF, mostra falência da
política e esgotamento da atual polarização
Quando parecia que a eleição deste ano não tinha como ficar
mais distante dos problemas reais do país, ela foi dragada por uma escalada sem
pé nem cabeça que começou num boato sobre Nossa Senhora Aparecida e terminou,
como sempre e como tudo, no plenário do Supremo Tribunal Federal (STF).
A guerra santa se fundiu à guerra aberta entre ministros da
Corte, num epílogo que nem as mentes mais criativas poderiam imaginar para uma
campanha em que as atenções estiveram muito mais voltadas à lista de
favorecidos por um banqueiro preso por fraude financeira que às propostas para
o futuro do Brasil.
De uma hora para outra, uma nova sessão de
um STF já conflagrado passa a ter tanta possibilidade de interferir nos rumos
do pleito quanto o debate do dia seguinte entre os candidatos à Presidência da
República.
Esse estado de coisas é prova cabal do esgotamento da
polarização entre dois grupos políticos que falharam em acenar ao eleitor com
esperança, combustível que costumava guiar o voto antes do ódio e do desejo de
aniquilação do outro, sentimentos que se impuseram pelo menos desde 2018.
Por mais que indicações dadas por Flávio Bolsonaro de que,
se eleito, poderia patrocinar ou incentivar discussões já propostas no passado,
sem sucesso, para rever feriados católicos ou a designação de Nossa Senhora
Aparecida como padroeira do Brasil, a celeuma em torno disso foi inflada por
Lula e pela esquerda de forma absolutamente bizantina.
Além de não ser fato que Flávio tenha efetivamente proposto
algo nesse sentido, espanta que seja isso, e não um caminhão de outras coisas
mais preocupantes que ele já disse efetivamente que fará — como indultar o pai
e os demais condenados por tentativa de golpe —, a chocar os eleitores que
professam essa ou aquela fé. Outra demonstração alarmante do descolamento em
relação à realidade que tem guiado esta corrida eleitoral.
Que Lula, que sempre condenou, ao menos no gogó, o uso
político da fé, tenha se aferrado a Nossa Senhora como um devoto que nunca foi
é mais um indício do grau de desespero que tomou sua campanha e seu governo
diante do risco concreto de derrota.
É inadmissível que um governante coloque no mesmo caldeirão
doses cavalares de populismo fiscal, usando a tinta da caneta até não sobrar
uma gota, e um proselitismo religioso indisfarçado para tentar recuperar
terreno nos campos da popularidade e da intenção de votos. pratiSe são esses os
remédios, resta a pergunta óbvia: o que esse político ainda tem a oferecer a um
país com tantas carências? Por que se
recusa a debater essas ideias, em vez de recorrer a mandrakarias?
E por que o temor de confrontar sua biografia, com três
mandatos presidenciais e uma vida política escrutinada — para o bem e para o
mal — há décadas, com a de um senador até ontem obscuro, cujas conquistas
políticas até aqui derivam apenas e tão somente do sobrenome e com uma ficha
corrida que também não foi trazida à luz nesta campanha marcada por
obscurantismo e diversionismo.
Em vez de travarem esse embate de projetos e trajetórias
olho no olho, os dois candidatos que lideram as pesquisas recorrem a ministros
do STF cada vez mais alinhados a grupos políticos e a narrativas falsas sobre
questões religiosas, que deveriam ficar fora dos palanques, porque não dizem
respeito à definição de políticas públicas num Estado laico. É vergonhoso e
perigoso ao mesmo tempo.
Parecia que o vexame de 15 de setembro seria o degrau mais
baixo a que o Supremo desceria para que seus integrantes, entrincheirados,
evitassem um mínimo de prestação de contas à sociedade sobre sua conduta e suas
relações.
Mas não: a guerra santa das redes sociais foi transposta
para os tribunais, opondo, de um lado, um ministro “terrivelmente evangélico” e
seus aliados e, de outro, um declaradamente católico e seu afã de participar do
processo político de que deveria ter se retirado quando foi nomeado para voltar
à magistratura.
É assim que o país se aproxima do momento de ir às urnas. O
grau de imprevisibilidade diante de uma disputa completamente irracional é tal
que praticamente só resta clamar: seja o que Deus quiser.
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