Não é exigido de Flávio Bolsonaro o compromisso com a
democracia, como em 2002 se exigiu de Lula uma carta garantindo a estabilização
econômica
O senador Flávio
Bolsonaro nunca assinou uma carta compromisso com a democracia, nem dele
foi exigido. Devia ter sido. Estamos a uma semana do primeiro turno. Ele tem
chances reais de ser eleito e carrega um enorme passivo autoritário, decorrente
dos atos e palavras dele e da família toda. Em 2002, o país exigiu do então
candidato Lula
da Silva que se comprometesse com as bases econômicas do Plano Real. Havia
dúvidas razoáveis sobre o programa econômico do PT. Lula escreveu a “Carta aos
Brasileiros” e a cumpriu.
Há dúvidas razoáveis sobre o candidato do PL. O senador teve
relações com integrantes da facção criminosa conhecida como milícia, está sendo
investigado pelo dinheiro recebido do ex-banqueiro corruptor Daniel Vorcaro,
teve uma loja de chocolate com faturamento atípico, nunca ficou claro como
conseguiu comprar uma mansão em Brasília. Sua amizade estreita com o advogado
Willer Tomaz é outro foco de incerteza. Willer é reincidente em casos de
corrupção. Chegou a ser preso por envolvimento na Operação Greenfield, em 2017,
que apurou fraudes com fundos de pensão, e agora é investigado no caso do INSS.
Esse currículo de dúvidas sobre o senador
já seria suficiente para ele ser escrutinado com mais objetividade. No entanto,
Flávio Bolsonaro foge das explicações necessárias, com a velha artimanha de
atacar como se não tivesse enorme telhado de vidro.
De todas as questões que pesam sobre o senador Flávio
Bolsonaro, a maior é o seu déficit democrático. Ele professa o mesmo ideário
autoritário do pai e dos irmãos. Nisso, a família é bem unida. O Brasil não
pode alegar desconhecimento desse risco, porque viu o projeto em ação. Foram
anos de ataques sistemáticos às instituições, de defesa da ditadura militar, de
demanda pela volta do AI-5, de tentativa de sedução das lideranças militares,
de mobilização dos seus seguidores para não respeitar o resultado das urnas de
2022. A investigação da tentativa de golpe de 8 de janeiro revelou que a
conspiração havia ido mais longe do que se pensara. Não cabe o benefício da
dúvida quando os fatos são tão sólidos.
A pátria caminha para as urnas distraída. A extrema direita
sempre foi muito competente em usar as ferramentas digitais para criar
realidades paralelas. Em 2018, houve a onda das fake news. A partir de 2019, o
chamado “gabinete do ódio” instalou-se no Palácio do Planalto e disparou contra
todos os que via como adversários. Os jornalistas, principalmente as mulheres,
foram alvo preferencial. Na pandemia, as mentiras contra a ciência elevaram o
número de mortes e reduziram a cobertura vacinal de várias doenças. Até hoje o
país luta contra as sequelas do atentado à confiança no programa de imunização.
A urna eletrônica sobreviveu a um bombardeio, cujo objetivo era minar o
processo eleitoral. Sabedor de tudo isso, o Brasil não pode subestimar o risco.
Em 2002, o medo principal era o retrocesso na economia. O
país havia vencido a hiperinflação depois de uma luta muito árdua, de anos. O
programa econômico do PT tinha propostas que poderiam abalar as bases da
política econômica que mantinha a inflação sob controle. Era chamado de risco
Lula. O mercado financeiro, então, exigiu um compromisso com a estabilização da
moeda e Lula fez algo mais amplo. Falou para o país como um todo, na “Carta aos
Brasileiros”. Acertou. O medo de perder o Real era da população em geral e não
apenas dos gestores de investimento.
O risco democrático nunca preocupou o mercado financeiro.
Deveria. Não há liberdade econômica, sem liberdade política. O poder sem
limites, sem o sistema de freios e contrapesos, é um risco econômico também.
O senador Flávio Bolsonaro disse em entrevista à Folha de
S.Paulo, em junho do ano passado, que o eleito em 2026 tinha que se comprometer
com o “uso da força” contra o Supremo, caso o STF considerasse inconstitucional
o indulto aos condenados pelo 8 de janeiro. Ele não falava de impeachment de
ministros dentro de um processo constitucional. Queria algo mais forte. “A
gente está falando do uso da força. A gente está falando de interferência
direta entre os poderes”. O senador Bolsonaro sempre negou ter havido tentativa
de golpe, trata de forma anedótica o ataque físico e institucional aos poderes,
promete subir a rampa com o pai. Nunca fez qualquer esforço para aplacar essas
dúvidas. Esse é o risco Flávio Bolsonaro.
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