Pesquisa Quaest: 56% afirmam não confiar no STF, dez a
mais do que em agosto. Somente 9% dizem confiar na instituição, contra 18% no
levantamento anterior
A sessão do Supremo Tribunal Federal marcada para esta
terça-feira é o Dia D de uma crise sem precedentes na história da Corte. Sob a
presidência do ministro Edson Fachin, o plenário decidirá se autoriza a
abertura de investigação sobre Alexandre de Moraes por causa de suas relações
com Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master. Não se trata ainda de
julgar nem de condenar o ministro, mas de decidir se os indícios reunidos pela
Polícia Federal justificam uma investigação. Essa distinção é fundamental para
o devido processo legal.
O Supremo vive sua própria guerra do Peloponeso. No conflito
narrado por Tucídides, Atenas e Esparta arrastaram seus aliados para uma
disputa prolongada que enfraqueceu todos, destruiu equilíbrios e abriu caminho
para a decadência das cidades gregas. No STF, a guerra de despachos, ofícios,
pedidos de suspeição, mudanças de relatoria, levantamento de sigilos e
acusações cruzadas transformou divergências jurídicas numa luta interna sem
precedentes pelo controle dos processos e pela sobrevivência das biografias.
O plenário examinará relatório da PF sobre
52 mensagens encontradas no celular de Vorcaro. Os diálogos registraram pedidos
de orientação e ajuda feitos pelo banqueiro quando já estava sob investigação e
prestes a ser preso. Também suscitam dúvidas sobre encontros fora da agenda
oficial e circulação de informações em segredo de Justiça. Soma-se a isso o
contrato de R$ 131 milhões firmado pelo Banco Master com o escritório de
Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro.
Moraes tem direito à presunção de inocência, à ampla defesa
e ao contraditório. Justamente por isso, a apuração é necessária. Sem uma
investigação técnica, as dúvidas continuarão submetidas aos vazamentos, às
versões interessadas e à batalha política. A crise se agravou porque as
suspeitas deixaram de ser examinadas apenas nos autos e passaram a orientar
movimentos dos próprios ministros.
André Mendonça determinou diligências que atingiram o
entorno de Moraes. Este reagiu questionando a condução das investigações e
exigindo acesso a documentos sigilosos. Gilmar Mendes, Flávio Dino e Cristiano
Zanin também contestaram procedimentos adotados por Mendonça. Fachin assumiu a
relatoria do caso envolvendo Moraes, centralizou processos e determinou a
abertura das informações que não comprometessem diligências em curso.
A Procuradoria-Geral da República e a Polícia Federal,
instituições que deveriam funcionar como garantidoras da legalidade, também
foram arrastadas para o conflito. Cada relatório, despacho ou manifestação
passou a ser interpretado como movimento de uma das facções. Até o levantamento
do sigilo da rede de pagamentos de Vorcaro, determinado por Mendonça depois de
solicitação de Moraes e aval da PGR, converteu-se em arma nessa batalha.
Proximidade tóxica
A operação autorizada por Dino contra o deputado Cezinha de
Madureira abriu outra frente. Mensagens indicariam que o parlamentar prometia
levar pessoalmente pedidos ao ministro Kassio Nunes Marques em processos nos
quais havia contratos de honorários condicionados ao êxito. Dino ressaltou que
Nunes Marques não é investigado e que receber advogados, políticos e memoriais
faz parte da atividade institucional.
Essa sucessão de fatos ocorre a três semanas do primeiro
turno de uma eleição indefinida. Os três levantamentos mais recentes apresentam
números diferentes no primeiro turno, mas convergem para um empate entre Lula e
Flávio Bolsonaro no segundo. A Atlas Intel/Bloomberg registra Lula com 43% e
Flávio com 37% no primeiro turno; no segundo, ambos aparecem com
aproximadamente 46%. Na pesquisa BTG Pactual/Nexus, Lula tem 42% contra 37%,
mas o segundo turno seria decidido por apenas um ponto: 47% a 46%. A Quaest mostra
Lula com 36% e Flávio com 31% na primeira rodada, porém inverte a ordem no
segundo turno: 42% para Flávio e 40% Lula, também em empate técnico.
Nem Lula nem Flávio consolidaram vantagem capaz de afastar a
possibilidade de derrota. Num cenário tão apertado, qualquer revelação, decisão
judicial ou vazamento pode deslocar os eleitores independentes. A crise do
Master já atingiu personagens de diferentes campos políticos e transformou o
Supremo, que deveria arbitrar os conflitos eleitorais, em protagonista da
campanha. O dado mais dramático vem da pesquisa Quaest: 56% dos entrevistados
afirmam não confiar no STF, dez pontos a mais do que em agosto. Somente 9%
dizem confiar muito na instituição, contra 18% no levantamento anterior.
O desgaste alcança setores independentes e eleitores que não se identificam com nenhum dos dois pólos. O STF tornou-se uma instituição eleitoralmente tóxica. Para o bolsonarismo, Moraes simboliza as decisões que atingiram Jair Bolsonaro e seus aliados. Para o campo governista, a associação construída entre Lula e setores do Supremo ameaça arrastar o presidente para uma crise que não criou, mas da qual não consegue se desvencilhar.
O desafio de Fachin vai além do destino de Moraes. Cabe-lhe impedir que o tribunal se transforme num comitê eleitoral ou numa confederação de gabinetes em guerra. Como no conflito do Peloponeso, o maior perigo não está na vitória de um lado, mas na destruição da autoridade moral da Corte.

Nenhum comentário:
Postar um comentário