É evidente o modo politizado como decide o ministro do
Supremo
Sua forma de agir se parece mais à de Sergio Moro que à
de um juiz atuando em nome da lei
O noticiário recente sobre o Supremo se
assemelha mais à cobertura esportiva de um ringue de luta livre que à de um
tribunal, com todo respeito aos praticantes de luta livre.
André
Mendonça emprega o caos institucional como estratégia de impacto
eleitoral. Se inocentes fôssemos, poderíamos supor que o ministro o faz de
forma a defender prerrogativas judiciais, mas ninguém mais acredita em juízes
heróis desde a Lava
Jato; Mendonça tem plena consciência de que as condições institucionais
dadas o favorecem —a saber, a fragilidade e o ego de Moraes, a opacidade de
Fachin e a eleição competitiva do filho do presidente que o nomeou para o
cargo.
De jurídico, os atos de Mendonça têm apenas a forma:
determina, de ofício, o afastamento da alta cúpula da PF –a mesma que
efetivamente melou o esquema de roubo do Vorcaro,
por suposto monitoramento de Mendonça pela PF.
Se, para Mendonça, a situação lembra Orwell
na distopia "1984", a sua resposta lembra a não menos distópica obra
"O Processo", de Kafka, na qual a lei serve apenas de pretexto para o
absurdo.
O fato de Mendonça ser o relator do inquérito sobre o qual
escolhe o que tornar publico ou não mostra que aprendeu bem na escola de
Curitiba de juízes políticos.
É evidente o modo politizado como Mendonça decide. Afasta
cautelarmente a liderança da Polícia
Federal, após requerimento do partido Novo, mesmo após o presidente do
STF, Edson
Fachin, corretamente pedir no último dia 3 as manifestações das partes envolvidas e
depois de o próprio Mendonça ter indicado, dois dias antes, que a matéria
deveria ser analisada em plenário.
Mais que no caos, Mendonça aposta na espetacularização como
arma política, o que apenas beneficia o campo político bolsonarista, ao qual
foi filiado como jurista no governo Bolsonaro.
Ao selecionar o que, quando e como decidir, conforme o tempo
político, com levantamentos seletivos de sigilo a menos de quatro semanas do
primeiro turno, Mendonça quer que o eleitorado vote pensando em Moraes e na
Polícia Federal.
Não quer que o eleitorado se lembre de como os Bolsonaros e
aliados estão profundamente imbricados com Vorcaro nem de como o ex-banqueiro
roubou dinheiro público e de pessoas pobres —em um esquema bilionário
envolvendo, em sua grande maioria, integrantes da direita nacional. Ele quer,
por fim, que o eleitor esqueça como o próprio Mendonça se assemelha mais a
Sérgio Moro que a um juiz que age em nome da lei.
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